Crítica | Ted Lasso (3ª temporada)

Ted Lasso é uma série que me permite fazer uma analogia metalinguística curiosa: ela é uma série que fala sobre futebol; muitos daqueles (eu incluso) que gostam muito de futebol, recorrentemente se apropriam da máxima ‘nunca foi só futebol’; o que nos traz de volta à série que é sobre futebol, mas nunca foi sobre só isso. Com a série aprendemos que ‘fútbol is life‘, assim como Ted Lasso é sobre a vida.

Se quando eu escrevi aqui recomendando a série há um ano atrás, terminando a segunda temporada, eu estava em completo êxtase e super empolgado com ela, agora que chegou ao fim, a sensação é de que ela se tornou uma das minhas favoritas da vida.

É bem verdade que essa terceira e última temporada não começa lá muito empolgante, especialmente quando comparada às outras duas. E não entenda mal: não é que a série simplesmente ficou ruim, é que o parâmetro que ela mesmo se impôs era tão bom, tão alto, que ela não estava conseguindo acompanhar esse padrão de excelência antes atingido. Mas do meio pra frente, quando ela engrena, ela não apenas se acha, talvez até se supere.

Daqui por diante o texto contém alguns spoilers da última temporada, então se você não quiser ter sua experiência comprometida antes de assistir, volte aqui quando tiver terminado pra conferir se concordamos.

Como um fã de futebol que sou, achei bastante engraçada a clara paródia feita com Ibrahimovic. Ainda mais porque também sou fã do jogador. Foi até divertido esse arco inicial da temporada. Mas… pensando em roteiro, o quanto esse arco em especial contribuiu pra história em geral? Muito pouco. Foi importante para uma virada da Rebecca, consolidar seu empoderamento. E teve lá sua relação com a autoestima dos jogadores.

Mas acabou tão do nada! Em um episódio ele tava lá, super poderoso e levando o time a uma inédita e empolgante sequência de vitórias. No outro, ele simplesmente saiu do time com uma explicação mixuruca e a partir daí o time desandou, como se só estivesse jogando bem porque ele estava no time. Entendo que foi preciso que eles percebessem que não precisavam de um astro como ele, mas a forma como foi conduzido esse arco poderia ser melhor.

Aproveitando esse link, de personagens quase jogados e semi-esquecíveis nessa temporada, senti falta da psicoterapeuta Dr. Sharon. Ela foi tão importante na segunda temporada, poderia render tanto ainda. E teve uma pequena aparição no início dessa terceira e outra no último episódio, acresentando praticamente nada. Mesmo assim, ver que ela volta no finalzinho, deixa implícito que tanto ela quanto o clube (mais ainda este segundo), entenderam a importância do cuidado com a saúde mental no esporte, especialmente no futebol.

Apesar de parecer que essa seria a temporada mais fraca da série, é inegável que ela se aprofunda mais em temas que precisam ser discutidos em todos os âmbitos da sociedade, mas que em um abiente altamente machista e heteronormativo como o futebol, precisa de ainda mais atenção.

Se o foco na saúde mental e um pouco no machismo permeou as primeiras temporadas, nessa terceira ele se dividiu muito bem entre homofobia e racismo, passando até por bullying e reforçando as questões familiares mal resolvidas. Há um pouco também de desigualdade social.

Os arcos dos personagens Sam e Collin são muito interessantes, tocantes e importantes, gerando discussões e reflexões. Poderiam até ser mais explorados, mas a forma como foram abordados foi no mínimo de bom tom.

Falando nisso, o grande destaque positivo dessa temporada foi o desenvoilvimento de personagens. Por um lado, o protagonista da série acabou tendo sua participação diminuída. Houve episódios em que ele foi uma mera participação especial. E isso não foi ruim! Ted teve duas temporadas de um incrível desenvolvimento. Além do mais, ele teve a atenção merecida quando realmente importou, especialmente pelo seu belo e justo final.

Por outro lado, personagens coadjuvantes tiverem a oportunidade de crescer e ganharam bastante profundidade. Keeley abre uma empresa de relações públicas, ganha um novo interesse amoroso (em um arco bastante importante em diversos aspectos), atinge o fundo do poço e no fim se recupera e se encontra de novo. Leslie consegue fazer um show de jazz e de quebra dá oportunidade ao roupeiro Will de ter uma pequena história para si. Trent Crimm escreve um livro sobre o Richmond (foco em Ted) e é super importante para o arco de Collin. Até mesmo o zilionário nigeriano Akufo retorna e tem sua relevância.

Há de se destacar umas das últimas interações entre Ted e Nate que, aliás, deve ter sido o personagem que mais evoluiu ao longo da série e quem mais brilha quando tem a oporunidade nessa última temporada. Seu abraço e choro é um absurdo de atuação. Só perde para o momento em que Beard o procura, perdoa e conta sua própria história. Muito impactante também. E nem vou entrar no seu relacionamento com os pais e na importância de Jade em sua jornada de rendeção.

É notável como os roteiristas encontraram uma boa saída para tirar o foco de um protagonista tão carismático sem perder a essência da série e sem negligenciar totalmente o desenvolvimento desse protagonista. Ele ainda é importante e segue sendo o elo que conecta todos esses personagens incríveis e relevantes para a história, que geram reflexões nos espectadores.

O último episódio conta com a emocionante última partida do Richmond na temporada. E ele é um deleite para quem gosta de esporte no que se refere à emoção do jogo em si. Por mais que nunca tenha sido sobre o futebol de fato, a metáfora aqui funciona também literalmente. A questão da virada, da superação e de acreditar ao mesmo tempo em que faz acontecer é clara, mas se você quiser só se ater a um jogo de futebol muito divertido você também estará satisfeito.

Há algo a ser dito sobre séries que sabem quando terminar e fazem isso nos seus próprios termos, sem querer agradar ao hype dos fãs. Só porque você pode imaginar o que aconteceria com os personagens no próximo estágio de suas vidas não significa que temos que vê-lo se desenrolar na tela. Tanto dentro de campo, como fora.

Pouca coisa poderia ser mais Ted Lasso que isso! Uma série que sempre se comprometeu em não ser óbvia, ser bem próxima da realidade mostrando seus dessabores e tristeza, mas que de aluma forma conseguia nos dar um quentinho no coração mostrando através da fantasia que a vida real também pode ter seus bons e doces momentos. Sua mensagem fundamentalmente esperançosa de superar a adversidade é o que muitas pessoas precisavam ouvir.

Quase todos os personagens, até mesmo o clube (que também é um personagem), tem um final ligeiramente aberto, alguns deles estão claramente abertos (se é que isso existe), deixando para o espectador pensar e entender o que quiser. E isso é pura arte!

Caso você não curta esse tipo de final, ou o final dessa série (ou mesmo de algum personagem em particular), nada diminui o que Ted Lasso construiu – aquela primeira temporada fantástica ainda estará lá para sempre. O final, muito comovente, é um lembrete de que poucas sitcoms (precisamos de um termo para dramédias situacionais) atuais podem mexer com o coração como Ted e sua trupe.

Vou sentir saudade desse clube, dessas pessoas. Mas muito feliz, satisfeito e agradecido por todas as emoções que eles me proporcionaram.

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