Recomendação | BoJack Horseman

Conforme fui ficando velho (no mau sentido mesmo, de ser ranzinza e não apenas ‘experiente’) fui ficando muito criterioso com desenhos animados novos. Passei a ter, em especial, pouca paciência para novas séries em animação.

Mas vez ou outra me permito ser influenciado por ‘influencers’ (desculpem a redundância) em quem confio e/ou tenho gostos parecidos. E foi assim que fui quase obrigado a assistir BoJack Horseman, já que absolutamente todos recomendam muito. Obrigado, influencers. Que obra-prima!

De problemas como o alcoolismo até a dor de um aborto espontâneo, BoJack conquistou seu lugar entre as animações mais profundas da Netflix, abordando temas pesados sem perder o toque bizarro de um mundo onde animais falam e vivem como humanos.

Mesmo quando os episódios mergulham em questões difíceis, a série mantém seu equilíbrio único, combinando sabedoria e humor ácido com uma sensibilidade que continua marcante até o último episódio.

Lançada em 2014, a série logo se destacou por ser muito mais do que uma simples comédia animada. Ao invés de se limitar ao humor, ela mergulha na vida conturbada do protagonista, um cavalo que já foi uma estrela de Hollywood, mas agora tenta lidar com os erros do passado e seus vícios autodestrutivos.

Ao longo de seis temporadas, a série explora temas como saúde mental, fracassos e tentativas de redenção, sempre com um toque ácido e realista. Quer dizer, mais ou menos realista. Só o fato dos personagens serem antropomórficos (animais com características e comportamentos humanos, a grosso modo), já dá pra classificar como um tanto ‘surreal’. E é justamente esse mix de absurdo e profundidade emocional que faz de BoJack Horseman uma obra tão querida no universo da cultura pop.

É impressionante como ela consegue te fazer rir na mesma intensidade que pode te fazer chorar, caso algo ali seja gatilho ou se você simplesmente é muito empático. Você pode passar o episódio inteiro rindo de idiotices e de situações nonsense, pra nos últimos 5 minutos, refletir sobre o que está fazendo da sua própria vida, ou sobre o fato de você não fazer ideia do que se passa no coração de pessoas próximas a você, sobre as dores de ser quem elas são. Sério.

Conforme você vai se aproximando do episódio final, a série nos revela o que realmente estava em jogo o tempo todo. Um bom exemplo, é quando Todd, o preguiçoso humano assexual, dublado por Aaron Paul (sim, o Jesse Pinkman de Breaking Bad), e nosso herói BoJack, o cavalo alcoólatra, estão na praia, refletindo sobre o amargo mistério da vida. BoJack conseguiu uma saída temporária da prisão para assistir ao casamento de sua ex e agente, Princesa Carolyn.

Durante essa conversa, Todd comenta com BoJack sobre a profundidade de Hokey Cokey (canção infantil muito popular nos EUA). “Você se transforma”, ele diz, destacando como essa frase simples encapsula a maneira como lidamos com os altos e baixos da vida — seja o alcoolismo e a autoaversão de BoJack, ou os abortos espontâneos da Princesa Carolyn. A mensagem é clara: a vida é cheia de contratempos, mas é na transformação que encontramos nosso caminho.

BoJack, cético, responde que não acha que os compositores estavam pensando no significado existencial da letra, citando uma das ‘rimas pobres’ da música. Todd, no entanto, não se deixou abalar pelo sarcasmo e respondeu que o objetivo da arte não é tanto o que as pessoas colocam nela, mas o que elas tiram dela.

Apesar do que uma leitura superficial do personagem possa sugerir, Todd é um sábio. Todos nós podemos encontrar algo valioso nos lugares mais inesperados. Se você consegue ver a luta de uma gata rosa falante contra a dor de um aborto espontâneo ou encontrar profundidade emocional em um cavalo com demência sendo consolado por seu filho perdido, então você está preparado para apreciar o que BoJack Horseman tem a oferecer.

E vale muito a pena. Assim como Os Simpsons, duas das grandes inspirações do criador da série Raphael Bob-Waksberg, BoJack Horseman consegue ser tocante e profundo sem perder o humor, muitas vezes fácil e/ou non-sense (ou não).

Ao longo de seis temporadas, a série evoluiu de uma comédia sarcástica sobre um cavalo egocêntrico e alcoólatra para a maior sátira de Hollywood na televisão. Ela é uma baita crítica às elites culturais que abusam de seu poder para prejudicar aqueles ao seu redor. O criador da série não só desafiou os clichês de Hollywood e as celebridades abusivas, mas também conseguiu fazer com que os espectadores simpatizassem com um protagonista cujas ações eram comparáveis às dos piores abusadores da vida real.

Acho genial, como poucas vezes eu vi em outras séries, mas especialmente em uma animação que é vista superficialmente como de ‘humor’, a forma como o roteiro consegue dar (muita) profundidade a todos os personagens centrais. Todos mesmo. Conforme você vai assistindo, você pode pensar ‘ah, não… esse personagem aí é só alívio cômico mesmo, esse outro é só chato’. Não se engane, todos eles são explorados em algum momento e você pode até simpatizar, sentir pena ou passar a se ver nele.

Experiências traumáticas parecem ser hereditárias na família de BoJack, por exemplo. Sua mãe foi consumida pela amargura de ver seus sonhos frustrados após se tornar mãe, enquanto BoJack cresceu em um ambiente onde sua própria existência era motivo de desprezo. Essa cadeia de dor atravessa gerações, moldando BoJack em alguém constantemente assombrado pelo peso do passado, incapaz de escapar das cicatrizes emocionais deixadas por sua infância.

A esperança, no entanto, ainda encontra espaço para florescer. Talvez seja por isso que os criadores gastaram tanto tempo explorando as profundezas da natureza humana. Apesar de seu passado conturbado, BoJack começa a mostrar sinais de mudança e passa a encarar as consequências de seus atos. Como quando ele finalmente se despede de um de seus antigos colegas de elenco de Horsin’ Around (série que o fez famoso nos anos 90), mesmo sabendo que isso traria angústia.

Ou quando ele tenta ajudar sua meia-irmã Hollyhock a descobrir quem é sua mãe, após semanas de buscas exaustivas entre ex-amantes. Ele também começou a enxergar o valor nas ideias da Princesa Carolyn, ao invés de rejeitá-las como costumava fazer nas primeiras temporadas. Essa evolução lenta, mas constante, mostra que há espaço para esperança até mesmo para um cavalo atormentado pelo próprio caos.

E não quero nem começar a falar de Diane, uma das melhores personagens da série, como a gente pode perceber desde o primeiro episódio, mas que cresce absurdamente ao longo das temporadas e que culmina ao lado de BoJack no último, redentor e sensível episódio.

BoJack Horseman é uma jornada profunda na psique humana explorando como as pessoas podem realmente mudar. Claro, BoJack ainda recorre a uma garrafa de vez em quando. Afinal, todo mundo tem o direito de se sentir triste; é parte da condição humana.

Mas o que torna BoJack um personagem tão intrigante é sua evolução. Ele se transforma em um símbolo de esperança, ao começar a considerar os sentimentos de seus amigos e familiares. Em vez de se afundar no álcool e na depressão, BoJack passa a ajudar e amar os outros.

A série nos mostra que, embora possamos mentir para nós mesmos e nos distrair com uma realidade falsa, isso nunca trará verdadeira satisfação ou felicidade. Ela nos desafia a nos libertar das ilusões e das narrativas populares que a sociedade nos impõe, aquelas que prometem finais felizes, mas que raramente correspondem à complexidade da vida real.

Mais do que isso, ela nos convida a redefinir nossa percepção da realidade, a aceitar que a vida é cheia de desafios e que nem sempre haverá um desfecho perfeito. No fim, não importa o que a vida nos traga: somos responsáveis por nossas ações e pela nossa própria felicidade.

Ao abandonar sua tendência à autopiedade, o protagonista desenvolve uma nova apreciação pela beleza e pelas pessoas que fazem parte de sua vida. No fim das contas, a série nos lembra de uma verdade simples e poderosa: “Todo mundo merece ser amado.”

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.