Recomendação | Big Little Lies

Big Little Lies é uma série da HBO baseada em um livro e que é uma montanha-russa emocional que te faz questionar até o vizinho mais simpático. Aqui, insegurança e baixa autoestima se misturam numa receita explosiva — e não é à toa que o drama pega fogo.

Com uma vibe de mistério que envolve desde uma recém-chegada com um passado sombrio, até um assassinato em que a gente não faz ideia de quem é a vítima ou o culpado, a série vai muito além da solução óbvia dos problemas. Tudo é um jogo de segredos que, aos poucos, vão corroendo as relações já frágeis desses personagens.

O roteiro e a direção da série fazem com que ela pareça mais um filme dividido em sete partes do que uma série comum. Claro que, vez ou outra, o melodrama escapa e dá as caras, mas com um elenco tão talentoso, você vai estar tão imerso no clima que nem vai ligar (ou vai até curtir).

Na história, Madeline Martha Mackenzie (Reese Witherspoon) é aquela pessoa que parece ter mil e uma coisas na cabeça o tempo todo. Ela quer o melhor para todo mundo, mas quando o assunto é a própria vida, a coisa complica.

Talvez seja o estresse do lar: seu marido, Ed (Adam Scott), é um cara tranquilo e gente boa, mas o casamento anda meio morno, e Ed tem aquela sensação constante de que é a “segunda opção” depois do primeiro marido de Madeline, Nathan (James Tupper). Pra piorar, Nathan se casou com a super zen e jovem Bonnie (Zoë Kravitz). Para fechar o combo de drama, Bonnie está se dando super bem com Abigail (Kathryn Newton), filha de Madeline e Nathan.

Madeline, claro, tenta se manter ocupada pra não pirar. Seu mais novo projeto? Uma produção meio polêmica da peça Avenue Q, porque né, não basta uma rotina agitada, tem que adicionar um toque de caos teatral. E tudo isso enquanto ela conhece uma nova figura na cidade no primeiro dia de aula.

A tal garota nova na cidade é Jane (Shailene Woodley), que acaba se conectando com Madeline de uma forma inesperada — tudo começa quando Jane ajuda Madeline após um pequeno acidente de carro. As duas se tornam amigas rapidinho, mas as coisas esquentam de verdade quando um incidente no primeiro dia de aula abala a comunidade.

O filho de Jane é acusado de algo grave pela filha de ninguém menos que Renata Klein (Laura Dern), uma das mães mais influentes e temidas de Monterey. É claro que Madeline não fica de braços cruzados e logo se coloca do lado de Jane, jogando mais lenha na fogueira das rivalidades entre as mães da primeira série.

No time Madeline/Jane, temos também Celeste (Nicole Kidman), aquela mulher que todo mundo em Monterey olha e pensa: “Ela tem tudo.” E não é pra menos — beleza, dinheiro, filhos perfeitos e um marido (Alexander Skarsgård) que, além de lindo e é rico. Mas, obviamente, Celeste também esconde segredos. Aliás, todos ali têm algo a esconder.

Ah, sim, tem aquele detalhe: alguém morreu! E a gente não tem ideia de quem morreu, muito menos de quem vai acabar na cadeia. Só sabemos que houve um assassinato brutal em um evento beneficente cheio de glamour. E é aí que mora a genialidade do roteiro: ele nos faz suspeitar de todo mundo, tanto a vítima quanto o assassino podem ser qualquer um.

Claro, não dá pra ignorar o papel dos homens em Big Little Lies, né? Desde o marido controlador até o inseguro, passando pelo meio inútil. Mas não se engane, eles também podem ser violentos e horríveis. A série chega a flertar com o perigo de banalizar a violência doméstica, algo que vem lá do material original. No entanto, o elenco manda tão bem que consegue evitar que isso aconteça, trazendo uma verdade crua e desconfortável ao melodrama.

Aliás, que baita elenco! E todos parecem estar em sua melhor forma! O que faz dessa série um verdadeiro evento é esse elenco, por mais que o roteiro e outros aspectos técnicos sejam também ótimos. Nos papéis menores, Dern, Kravitz e Scott arrasam, mas é o trio principal que mantém tudo fascinante, com um destaque especial para Nicole Kidman.

Ela traz uma profundidade dolorosamente real à sua personagem, uma mulher que parece ter uma vida perfeita, mas está tão presa nessa perfeição que não consegue dividir sua dor com ninguém. É uma das melhores performances da Kidman (e dá pra dizer o mesmo de Witherspoon e Woodley).

E isso porque por enquanto foquei na primeira temporada. É bem verdade que ela foi pensada inicialmente como uma minissérie fechada, com início, meio e fim. E de fato essa ‘primeira temporada’ cobriu todo o livro — incluindo um final de tirar o fôlego — em apenas sete episódios. Mas, mesmo tendo esgotado o material original, a HBO, claro, quis aproveitar o sucesso estrondoso e encomendou uma segunda temporada.

E apesar de alguns críticos torcerem o nariz, a série seguiu firme e forte, provando que às vezes vale a pena esticar a história um pouquinho mais. A segunda temporada tem uma vibe um pouco diferente.

E não é só porque a série agora foi além do material original ou pela presença da deusa Meryl Streep no elenco. Sim, o elenco que já era excelente passou a ser perfeito. O tom parece mais leve, mas ao mesmo tempo, mais pé no chão. Dessa vez, a série foca menos nas reviravoltas chocantes e nos momentos de “meninas malvadas”, e se aprofunda mais no desenvolvimento e background dos personagens, trazendo uma pegada mais intimista e emocional.

O clima é um pouco menos tenso e dramático comparado ao mistério “Quem matou o Personagem X?” e todo o histórico de violência doméstico da primeira. Agora, o foco está nas “Monterey 5” — apelido dado a Celeste, Renata, Madeline, Jane e Bonnie, já que todas estavam presentes no evento de caridade com tema de Audrey Hepburn e Elvis Presley, onde o Personagem X morre no final da primeira temporada.

As cinco estão tentando seguir em frente depois do trauma, ao mesmo tempo que precisam manter de pé a ‘pequena grande mentira’ (entenderam?!) que criaram pra proteger o/a verdadeiro/a ‘culpado/a’.

Mary Louise Wright (Meryl Streep) chega à cidade, com a missão de ajudar a cuidar dos netos — os gêmeos de Celeste. Só que o papel de Streep vai além da avó preocupada. Ela começa a cutucar Celeste e o resto do Monterey 5 em busca de respostas. E, embora Mary Louise tenha uma fachada inocente, tem algo sinistro por trás daquele jeito doce e passivo.

Big Little Lies deixa claro, desde o início, que monstros não nascem, eles são criados — e que os pais, querendo ou não, acabam moldando seus filhos. Por exemplo, na primeira temporada, um dos filhos de Celeste e Perry machucou Amabella. Era tudo um reflexo do que seus pai fazia. Com tudo o que já sabemos sobre Perry, não seria surpresa descobrir que Mary Louise também tem alguns esqueletos bem escondidos no armário.

É nessa delicada e tensa dinâmica entre sogra e nora que a segunda temporada realmente ganha vida. O jeito como Celeste lida com sua dor já é fascinante por si só. Ela está dividida entre proteger a imagem do pai para seus filhos e aceitar a realidade brutal de que Perry não só a agrediu, mas cometeu um crime ainda mais grave contra uma de suas amigas.

Mary Louise não tem paciência para o teatro de Madeline — ela desconfia de pessoas que falam demais e, olha, com razão. Ela não é do tipo que senta quieta pra chorar; se ela sente que tem algo mais para descobrir ou questionar, ela vai fundo. (Tem um momento em que Streep grita — e é maravilhoso.)

Na primeira temporada, o mistério foi o elemento unificador. Agora, na segunda, é o encobrimento. Cada personagem parece estar em um gênero próprio: Madeline numa comédia satírica, Celeste num drama pesado e Renata em uma novela de horário nobre. Mas Streep surge como a força que une tudo.

Quando o último episódio parecia caminhar para um final bem ao estilo novela de Manoel Carlos — com casamento, morte e reconciliações —, as cinco protagonistas tomaram um rumo inesperado. Há quem ache o final não tão satisfatório quanto o da primeira temporada. Mas também não foi totalmente inconclusivo.

Quem já lê esse blog, as reviews, críticas e recomendações, sabe bem que o final é apenas uma parte da jornada. Eu não consumo uma obra, em qualquer mídia, para saber o seu final. Da mesma forma, se um final não está de acordo com as minhas expectativas (ou as gerais), eu posso até ficar decepcionado, mas isso não abona minha experiência com a obra como um todo.

De toda forma, em Big Little Lies eu não achei o final ruim. Concordo, no entanto, que foi anticlimático. Mas isso, pra mim, é bom. Quebra totalmente as expectativas. E, sinceramente, combina com toda a trajetória da série. Mais importante: faz jus às personagens.

Independentemente de você gostar ou não do final, você deveria assistit Big Little Lies. Especialmente se você gosta de histórias de mistério bem escritas (quase à la Agatha Christie) e interpretações espetaculares.

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