Se tem uma coisa que Lost sempre soube fazer, é bagunçar nossa cabeça. Lá em 2004, quando a gente embarcou de mala e cuia no voo 815 da Oceanic Airlines, ninguém estava preparado para a montanha-russa de mistérios, teorias malucas e reviravoltas de enlouquecer. Mas, se você achava que a 4ª temporada já tinha dado uma boa dose de emoção com flash forwards e os Oceanic Six, a 5ª temporada vem com um nível extra de loucura: viagem no tempo. Sim, Lost foi lá e chutou o balde das regras convencionais da narrativa.

Agora, a ilha não está apenas perdida no mapa, ela está perdida no tempo. E nós, meros mortais, somos convidados a acompanhar Sawyer, Juliet, Locke e companhia em um verdadeiro vai e volta temporal que coloca em cheque tudo o que pensávamos saber. Entre os sobreviventes que ficaram na ilha, os que saíram e querem voltar, e os segredos que parecem se multiplicar, a quinta temporada é um prato cheio para quem curte ficção científica temperada com drama e aquele bom e velho WTF?! Por isso, se prepare para ter suas teorias explodidas e a cabeça fritando enquanto a narrativa te joga para o passado, o futuro e, quem sabe, para algum lugar onde o tempo nem existe.
A quinta temporada é geralmente considerada uma das melhores da série, e com razão. A narrativa é rápida, os personagens ganham um desenvolvimento significativo e a mitologia da ilha é expandida como nunca antes, especialmente com a introdução dos elementos de viagem no tempo. A ilha, que já era misteriosa o suficiente, agora se torna um tabuleiro de xadrez temporal que mexe com o passado, o futuro e a cabeça de todo mundo. Eu costumo dizer que Lost correu para que Dark pudesse caminhar.
No entanto, a quem diga também que essa é uma das, se não a pior de todas. Os principais argumentos são a dinâmica muito diferente com personagens dentro e fora da ilha, em épocas diferentes, o período em que ficam ‘vagando’ pelo tempo. Ou ainda a teia amorosa que já existia entre os três personagens centrais e que já havia incluído mais uma em um certo nível na temporada 3, mas que agora se torna ainda mais complexa. Na minha opinião, esses justamente argumentos que a fazem ser uma das melhores.

A força motriz da temporada é, mais uma vez, Jack e Sawyer (que passamos a chamar durante boa parte da temporada de LaFleur). Mas os dois personagens estão completamente invertidos. O diplomático, compassivo e normalmente bem chato Jack, agora está em uma missão movida pela fé para retornar à ilha para cumprir seu ‘destino’ e não deixa ninguém ficar em seu caminho.
É curioso como há mais do “homem de fé” de Locke sobre ele agora do que o “homem da ciência” original Jack. Sawyer também está mudado, como resultado de passar 3 anos pacíficos em uma comunidade Dharma com Juliet. Ele passa de anti-herói teimoso para herói genuíno, liderando a equipe de segurança da comunidade e sendo o namorado adorável de Juliet.

Por falar nela, o salto de evolução e profunidade que há com Juliet, é um dos melhores da série. É bem verdade que para Sawyer também, mas ela… Ela finalmente atinge seu ápice. Literalmente, com um final de temporada apoteótico, Juliet mostra por que precisava estar na ilha e cumpre sua parte por lá. Difícil não ser conquistado de vez por ela, caso você ainda não tivesse sido.
Essa temporada é dividida claramente em duas metades. A primeira segue os Oceanic Six tentando retornar à ilha enquanto os flashbacks mostram aqueles que foram deixados para trás, saltando no tempo.
Já a segunda metade é onde tudo escala de vez, quando os Oceanic Six colidem com as vidas de Sawyer e do grupo que ficou na ilha. E é aí que a coisa fica ainda mais ‘esotérica’, digamos. Nem todos os passageiros do voo Ajira 316 acabam em 1977. Ben e Sun, por exemplo, permanecem no “presente”, junto com Locke — que aparentemente ressuscitou dos mortos. Mas é claro que em Lost, nada é tão simples.
No episódio final, chamado “The Incident” e dividido em duas partes, somos brindados com uma revelação: Locke não é mais Locke, mas sim o ‘Monstro de Fumaça‘, a.k.a. O Homem de Preto, disfarçado. Essa reviravolta, embora divisiva, é Lost em sua melhor forma. Ela oferece aos sobreviventes algo além de um inimigo humano para enfrentar e aprofunda as discussões espirituais que a série sempre fez tão bem. E enquanto isso pavimenta o caminho para os debates acalorados da sexta temporada, a quinta deixa uma marca como um dos momentos mais ousados e memoráveis de toda a série.
Inclusive, é no fim dessa temporada em que vemos pela primeira vez o rosto não só de Jacob, (aliás, um baita episódio o que vimos o momento em que ele escolhe cada um dos Oceanic Six; arrepiante), mas também o verdadeiro rosto do ‘Homem de Preto’.

A quinta temporada conserta algo que muitos alegam ser aquilo que a série fez de errado nas temporadas anteriores. Os mistérios não são mais arrastados ao longo de toda a temporada (ou além disso), e a história avança em um ritmo frenético. Mas, apesar de ser ágil, a narrativa nunca parece apressada ou cansativa. É divertido assistir Jack, Kate e Hurley fingindo ser membros da Dharma Initiative em 1977 quando retornam à ilha. Isso cria momentos de tensão genuína, especialmente enquanto eles tentam se passar por funcionários como zeladores, mecânicos e, no caso de Hurley, um chef.
Um exemplo claro de como os roteiristas aprenderam com os erros passados aparece em “The Variable”, quando a mentira dos Oceanic Six é ameaçada. Em temporadas anteriores, essa situação poderia ter sido prolongada por vários episódios (lembra de Ben se passando por Henry Gale na segunda temporada?). Desta vez, tudo escala rapidamente, com conversas dando lugar a tiroteios eletrizantes. Isso reflete a mudança nos personagens, especialmente Jack, que abandona sua abordagem diplomática e pacífica em favor de uma fé cega nos moldes de Locke.

Outro ponto forte da temporada é a ação. Há diversos tiroteios brutais e emocionantes que trazem um ritmo surpreendente para a série. Em “The Incident”, vemos Sayid levar um tiro no abdômen e ficamos genuinamente preocupados se ele vai viver ou não, e Jack enfrentando os seguranças da Dharma.
Não se engane: o drama e o desenvolvimento de personagens continua sendo o melhor da série. Alguns personagens finalmente ganham as camadas finais que faltavam, outros se aprofundam pela primeira (e última?) vez. Há quem fique quase inerte de tão depressivo, mas de um jeito bom, pois é assim que humanos reais reagiriam naquela circunstância.
É emocionante pra caramba ver o porquê e como alguns personagens já estiveram na ilha antes (lembre-se, tempo é confuso e relativo agora), outros que encontram seus pais lá, mesmo que não se lembrem disso (?!) ou estivessem de fato estado lá. Alguns encontros acabam até se tornando trágicos. Ou seja, mesmo com tanta coisa acontecendo, ainda são os personagens que dão um banho de tão bem escritos e interpertados. Eles são a principal razão de Lost existir, esses personagens excelentes.

Essa temporada talvez não tenha agradado a todos. Não há dúvidas que muita gente desanimou com a direção que a série tomou na época. Mas valeu muito a pena continuar. Não só os elementos de ficção científica são maravilhosamente realizados, mas o drama envolvente dos personagens — que fez de Lost um sucesso em primeiro lugar — está melhor do que nunca.
A série muda habilmente a direção de seus protagonistas, fazendo com que suas motivações evoluam, ou simplesmente os eliminando de forma impactante. Prova disso tudo é aquele final de temporada de deixar com o coração na mão. E você que está lendo isso anos depois da série ter ido ao ar, não faz ideia de como foi ter que esperar um ano para ver a conclusão!
De alguma forma, a temporada consegue ser totalmente nova ao mesmo tempo que mantém a essência da série pela qual nos apaixonamos quando o voo Oceanic 815 caiu na praia. A quinta temporada não é só uma das melhores de Lost; é um marco que prova por que a série ainda é lembrada como uma das maiores de todos os tempos. Se isso não é motivo suficiente para revisitar (ou conhecer) a ilha, eu não sei o que é.