Review | Stranger Things

Desde que estreou em 2016, Stranger Things deixou claro que não seria apenas mais uma série nostálgica da Netflix. Criada pelos irmãos Duffer, a produção rapidamente se transformou em um fenômeno global ao misturar terror, ficção científica, aventura e drama com algo que muita série esquece no caminho: coração. Ao longo de suas temporadas, Stranger Things cresceu, tropeçou em alguns momentos, mas nunca deixou de ser relevante — e hoje ocupa um lugar definitivo na cultura pop.

A ideia desse texto, é fazer um review geral de toda a série, pincelando um pouco sobre cada temporada e ressaltando alguns pontos que a fizeram se tornar fenômeno mundial.

A primeira temporada e o impacto imediato em Hawkins

A primeira temporada de Stranger Things é quase um manual de como fisgar o público. O desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp), a introdução da misteriosa Eleven (originalmente chamada Millie Bobby Brown, mas que agora quer ser conhecida como Millie Bonnie Bongiovi) e a existência do Mundo Invertido criam uma atmosfera de suspense irresistível. As referências aos anos 80 estão por toda parte, mas nunca como simples fanservice. Elas ajudam a construir identidade e linguagem.

Mais do que o mistério, o que realmente conecta o espectador é o grupo de personagens. Crianças deslocadas, adultos emocionalmente quebrados e uma amizade que funciona como escudo contra o medo. A série nasce pequena em escala, mas gigante em impacto emocional — e isso explica por que ela explodiu tão rápido.

Segunda temporada: aprofundamento e consequências

Na segunda temporada, Stranger Things entende que não pode simplesmente repetir o sucesso inicial. Em vez disso, escolhe aprofundar os traumas deixados pelos acontecimentos anteriores. O perigo evolui, os personagens mudam e Hawkins deixa de ser apenas o palco de algo estranho para se tornar um lugar marcado por cicatrizes.

Mesmo sendo considerada por muitos como uma temporada de transição, ela é fundamental para o amadurecimento da série e para fortalecer o vínculo emocional com o público. E tão importante quanto: para a evolução e desenvolvimento dos personagens.

Terceira temporada e o peso de virar um fenômeno

A terceira temporada marca o momento em que Stranger Things assume completamente seu status de fenômeno pop. O shopping, os neons, o humor mais escancarado e o espetáculo ganham espaço. A série se torna maior, mais barulhenta e mais consciente de sua própria popularidade.

Aqui surgem também algumas críticas legítimas: em certos momentos, parece que o evento cultural começa a competir com a narrativa. O sucesso massivo cria expectativas gigantescas e a série passa a ser analisada mais pelo hype do que pela história. Ainda assim, emocionalmente, a temporada entrega momentos fortes e deixa claro que ainda existe algo verdadeiro ali.

Quarta temporada: o resgate da essência de Stranger Things

A quarta temporada surge como um ponto de virada. Mais sombria, mais longa e mais ambiciosa, ela aposta no terror psicológico e apresenta Vecna (Jamie Campbell Bower) como o vilão mais interessante da série. Diferente dos monstros anteriores, ele não representa apenas uma ameaça física, mas emocional — um reflexo direto de culpa, trauma e dor reprimida.

O arco final da temporada funciona como um resgate. Stranger Things parece consciente de seus excessos e escolhe reconectar a história àquilo que sempre foi seu maior diferencial: personagens, consequências e emoção real. O impacto foi imediato, com recordes de audiência, repercussão mundial e até músicas dos anos 80 retornando ao topo das paradas.

Quinta temporada: expectativa, encerramento e legado

A quinta temporada de Stranger Things carrega um peso simbólico enorme. Trata-se do encerramento de uma história que acompanhou uma geração inteira. Tudo indicaria que a série apostaria menos na dispersão e mais no fechamento emocional, trazendo a narrativa de volta a Hawkins e colocando seus personagens no centro da conclusão.

A comoção global em torno do final não é exagero. Poucas séries conseguem criar esse nível de expectativa coletiva, debates intensos e envolvimento emocional mesmo após quase uma década no ar.

Ainda assim, o encerramento dividiu opiniões. Parte do público sentiu o peso de um hype quase impossível de satisfazer, o que transformou qualquer escolha narrativa em frustração para quem já tinha um final idealizado na cabeça.

Os episódios mais longos também geraram críticas, principalmente pelo ritmo irregular e pela sensação de que algumas tramas poderiam ser mais enxutas. Soma-se a isso um elenco cada vez maior, que inevitavelmente dilui o foco e deixa certos personagens com arcos menos explorados do que os fãs esperavam.

Há ainda quem tenha sentido falta de consequências mais radicais, esperando decisões definitivas e perdas irreversíveis, além do tom mais sombrio, que se afasta da aventura leve das primeiras temporadas. Nada disso invalida o impacto da série, mas ajuda a explicar por que o fim de Stranger Things foi tão debatido quanto aguardado.

No meu caso, sendo uma pessoa que tem Lost como melhor série da vida, mesmo que eu tivesse achado o final ruim (ou que não é o caso, pois eu gostei do final), isso não apagaria de forma alguma a minha experiência com a série ao longo dessa década e nem mesmo mudaria minha opinião geral sobre ela. É como eu sempre digo: o que vale é a jornada, não o destino.

Referências, nostalgia e identidade cultural

Stephen King, Spielberg, Os Goonies, E.T., terror clássico, RPGs e synths oitentistas fazem parte do DNA de Stranger Things. A diferença é que a série nunca usa essas referências como muleta. A nostalgia aqui é linguagem, não dependência. Ou pelo menos sabe fazer isso muito bem. Ela conecta gerações e ajuda a contar uma história nova, não apenas repetir o passado.

Por que Stranger Things é tão importante para a cultura pop?

No fim das contas, Stranger Things é mais do que uma série de sucesso da Netflix. Ela influenciou moda, música, comportamento, reacendeu o interesse por gêneros clássicos e mostrou que histórias sobre amizade, medo e amadurecimento ainda têm poder de mobilizar o mundo inteiro.

Assistir Stranger Things é revisitar o passado, encarar o presente e se despedir de personagens que cresceram junto com o público. Poucas séries conseguiram esse feito. Menos ainda entraram para a história com tanta naturalidade. E é um tanto triste perceber que isso muito dificilmente vai voltar a acontecer, pelo menos em um futuro próximo considerando-se os caminhos que vemos se desenhando (alguns diriam que já consolidados) sobre a forma de consumir séries.

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