Review | É solitário no centro da Terra (HQ)

Tem HQ que você lê. Tem HQ que você admira. E tem HQ que te desmonta peça por peça, te faz encarar o teto depois de algumas páginas e pensar: “ok, isso aqui foi pessoal demais”. É Solitário no Centro da Terra é dessa última categoria.

Zoe Thorogood pega seis meses da própria vida — prazo de entrega, bloqueio criativo, depressão, síndrome do impostor, pensamentos autodestrutivos — e transforma tudo numa experiência metalinguística que usa o próprio formato dos quadrinhos como extensão da mente dela. Não é só sobre o que ela sente. É sobre como ela sente. E a gente sente junto.

Quando a forma vira conteúdo

A grande sacada da HQ é que ela não conta a história de maneira linear e comportada. A narrativa se fragmenta, se interrompe, se contradiz. Versões diferentes da própria Zoe conversam entre si. Páginas ficam claustrofóbicas. Outras parecem silenciosas demais. A arte muda de estilo conforme o estado emocional muda.

É um caos? Às vezes, sim. Mas é um caos calculado. A estrutura quebrada não é pose artística — é tradução emocional. E isso é brilhante.

A arte é outro ponto absurdo de forte. Zoe alterna entre traços mais soltos, quase cartunescos, e momentos hiper detalhados que parecem gritar na página. O preto e branco ajuda a criar essa atmosfera de isolamento, como se o mundo estivesse sempre um pouco drenado de cor. Não tem glamour, não tem romantização da dor. Só honestidade crua.

O que mais me pegou

Essa HQ me tocou num lugar muito específico.

Eu me identifiquei demais com várias das angústias que ela coloca ali: o medo de não ser bom o suficiente, a sensação de estar sempre atrasado em relação ao mundo, a autossabotagem, aquela voz interna que nunca está satisfeita. Mesmo que as razões sejam diferentes — e mesmo que existam particularidades muito próprias dela, como mulher, como artista inserida numa indústria criativa — o sentimento de inadequação é universal.

E é isso que torna o livro tão poderoso. Ele é profundamente pessoal, mas ao mesmo tempo incrivelmente compartilhável.

Tem momentos que parecem quase desconfortáveis de tão íntimos. E eu digo isso como elogio. Porque não é fácil expor fragilidade desse jeito. Não é fácil colocar no papel pensamentos que muita gente tenta esconder até de si mesma.

Sobre as críticas (e por que elas não diminuem a obra)

Sim, há quem possar achar a HQ bagunçada. Há quem vá sentir falta de uma “história” mais tradicional. E dá pra entender. Não é uma leitura convencional. Não é aquele quadrinho com começo, meio e fim bem amarradinhos.

Aliás, eu adoro o fim e a dificuldade da autora em conseguir encerrar a história. Como quem está habituado a escrita criativa, me identifiquei muito também com essa parte.

Mas talvez essa expectativa seja justamente o problema.

É Solitário no Centro da Terra não quer ser uma narrativa confortável. Ela quer ser uma experiência emocional. E experiências não seguem roteiro clássico. Elas acontecem. Às vezes de forma caótica, às vezes repetitiva, às vezes cansativa. Assim como a própria depressão.

Alguns leitores também podem apontar um certo tom autoindulgente. Particularmente, eu enxergo como vulnerabilidade radical. Existe uma diferença enorme entre se colocar no centro da narrativa e se colocar em julgamento constante — e Zoe faz muito mais a segunda coisa.

Uma das HQs mais honestas que já li

No fim das contas, o que fica é a sensação de ter lido algo importante. Não importante no sentido “intelectual cult”, mas importante emocionalmente.

É aquele tipo de obra que te faz sentir menos sozinho. Que te lembra que outras pessoas também estão lutando batalhas internas silenciosas. Que a mente pode ser um lugar barulhento demais — e que transformar isso em arte é, por si só, um ato de coragem.

É Solitário no Centro da Terra não oferece soluções mágicas. Não entrega redenção épica. Não fecha tudo com laço bonito. E ainda bem.

Porque a vida real também não faz isso.

Zoe Thorogood criou aqui um quadrinho que é ao mesmo tempo diário, terapia, experimento formal e grito preso na garganta. E pra mim, foi impossível sair ileso dessa leitura.

Se você curte HQs que desafiam formato, que mexem com a cabeça e que não têm medo de ser desconfortáveis, coloca essa na lista. Mas já aviso: não é uma leitura leve e pode ter muitos gatilhos, especialmente para já sofreu ou sofre com a depressão. É uma leitura necessária.

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