Muito tem se questionado sobre o rumo das produções da Marvel (e de super-heróis de maneira geral). Mas Magnum — título brasileiro da série originalmente chamada Wonder Man no Disney+ — surge quase como um antídoto para a fadiga de super-heróis. Em vez de apostar em batalhas gigantescas, vilões apocalípticos ou conexões intermináveis com o multiverso, a série escolhe um caminho muito mais interessante: contar uma história sobre personagens, amizade e identidade dentro da própria indústria do entretenimento.
A premissa acompanha Simon Williams, interpretado por Yahya Abdul-Mateen II, um ator tentando encontrar seu lugar em Hollywood que acaba se envolvendo com o universo dos super-heróis de uma maneira bastante inusitada. O grande trunfo da série está justamente nessa abordagem metalinguística: Magnum olha para o gênero de super-heróis com certo humor e autoconsciência, comentando a própria saturação do gênero enquanto constrói uma narrativa surpreendentemente humana.
E funciona. A produção foi recebida de forma bastante positiva pela crítica, com cerca de 90% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações geralmente favoráveis no Metacritic, consolidando a série como uma das experiências mais bem recebidas da Marvel no streaming nos últimos anos.
Mas o que realmente faz Magnum brilhar é seu elenco.
Yahya Abdul-Mateen II entrega uma performance cheia de nuances como Simon Williams. O ator consegue equilibrar vulnerabilidade, ambição e um certo desajuste emocional que torna o personagem imediatamente humano. É fácil se conectar com suas inseguranças e com o desejo quase desesperado de ser levado a sério — algo que, de certa forma, dialoga com qualquer pessoa que já tentou encontrar seu lugar no mundo. E, meta linguagem ativada, também deve ser muito comum nos dias de hoje em relação a papeis em produções de super-heróis.
Ainda assim, por mais sólido que seja o protagonista, é Ben Kingsley quem absolutamente domina a série.
Retornando como Trevor Slattery — o infame “Mandarim” falso apresentado em Homem de Ferro 3 e que depois retorna em Shang Chi e a Lenda dos Dez Aneis — Kingsley entrega uma performance simplesmente deliciosa. Seu personagem, que durante anos foi tratado mais como uma piada dentro do MCU, finalmente recebe aqui o espaço dramático que sempre mereceu. O resultado é uma atuação cheia de camadas, alternando humor, fragilidade e uma melancolia inesperada.

Kingsley transforma Trevor em algo muito maior do que uma simples ‘gag’ do passado da Marvel. Há momentos em que ele parece um ator decadente tentando se agarrar a qualquer papel que ainda lhe dê relevância — e essa vulnerabilidade torna o personagem incrivelmente humano. Não à toa, muitos críticos apontaram justamente a química entre Kingsley e Abdul-Mateen como um dos pontos mais fortes da série, criando uma dinâmica quase de ‘buddy comedy’ que sustenta boa parte da narrativa.
Outro acerto da série está no tom. Magnum é leve, espirituosa e surpreendentemente intimista para algo ambientado no universo Marvel. Em vez de depender de explosões ou efeitos visuais, a trama se apoia em diálogos afiados, momentos cômicos bem construídos e um drama pessoal que cresce episódio após episódio.
Essa escolha narrativa também torna a série acessível até para quem não acompanha o MCU religiosamente. A história funciona quase como uma obra independente dentro desse universo gigantesco, permitindo que novos espectadores entrem sem precisar fazer “dever de casa” com dezenas de filmes anteriores.

Para quem gosta de histórias que cutucam os bastidores de Hollywood, Magnum também pode ter um sabor familiar. Em vários momentos, a série lembra um pouco o espírito de O Estúdio, produção estrelada por Seth Rogen, que também mergulha no caos criativo e nas bizarrices da indústria do entretenimento. Claro, cada uma segue um caminho próprio, mas essa curiosidade pelos mecanismos — e egos — que movem as produções hollywoodianas cria um ponto de contato divertido entre as duas. Quem curtiu acompanhar produtores surtando, decisões absurdas de estúdio e artistas tentando sobreviver ao sistema provavelmente vai encontrar em Magnum uma certa conexão. E, sejamos sinceros, a série faz isso com muito mais charme do que a péssima A Franquia (da HBO), tentativa recente de brincar com a metalinguagem dos super-heróis que acabou soando mais boba do que esperta — e que, não por acaso, acabou cancelada logo na primeira temporada. Eu assisti toda, mas nem valeu a pena escrever aqui.
E mesmo para quem já se afastou das produções da Marvel ou anda com pouca paciência para histórias de super-heróis, Magnum pode ser uma surpresa bem agradável. Magnum aposta em algo que muitas produções do gênero acabam deixando em segundo plano: carisma e boas performances. O peso dramático e o humor nascem muito mais da interação entre os personagens do que de grandes eventos ou conexões com o restante do MCU. Isso faz com que a série tenha um apelo mais universal — mesmo para quem normalmente não se interessa por histórias de heróis mascarados.
Se você é como eu, que não está inserido nesse grupo dos que cansaram e ainda curte muito o gênero, e continua querendo assistir cada vez mais produções assim porque sabe que há ainda muita coisa boa para ser adaptada, vai gostar muito da série. É um prato cheio, do tipo que dá vontade de esfregar na cara dos haters e falar ‘olha isso aqui mermão, isso é puro ouro!’

Vale dizer também que Magnum faz uma adaptação bem livre do personagem dos quadrinhos. Na verdade, ele entra para aquela lista já extensa de figuras da Marvel que passaram por mudanças consideráveis ao serem transportadas para o universo audiovisual. Só que, neste caso, isso pesa bem menos. Diferente de ícones como Homem-Aranha ou Capitão América, Magnum nunca foi exatamente um nome popular fora das HQs, então a série acaba tendo mais liberdade para brincar com o material original sem causar grandes crises existenciais no fandom. E, sejamos honestos: se você for uma das aproximadamente 37 pessoas ao redor do mundo que realmente se considera fã hardcore do personagem, há grandes chances de que nem se incomode tanto assim — principalmente porque essa nova versão funciona muito bem dentro da proposta da série.
No fim das contas, Magnum é aquele tipo raro de produção da Marvel que prefere apostar em personagens em vez de espetáculo. E essa decisão faz toda a diferença. A série prova que ainda há muito espaço para histórias criativas dentro do MCU.
Se o futuro da Marvel passar mais vezes por projetos assim — menores, mais autorais e focados em personagens — talvez a tão falada fadiga de super-heróis fique definitivamente no passado e o gênero fique de vez por aí, para sempre.