Anatomia de uma Queda já começa com um desconcertante jogo social, onde a brilhante escritora Sandra Voyter (Sandra Hüller), nos cativa com sua atitude desafiadora e um toque de desrespeito perante a uma pesquisadora acadêmica que tenta a entrevistar. Até que uma música absurdamente alta e irritante simplesmente as impede de continuar. A pesquisadora vai embora, o filho cego de Sandra sai para dar uma volta. Quando retorna, encontra o pai caído em frente casa, morto.

Já temos um início intrigante e bem distinto de filme.
Num intricado jogo de perspectivas, “Anatomia de uma Queda” nos presenteia com uma narrativa envolvente, onde a queda trágica pode ser interpretada de diversas maneiras. A linha entre acidente, assassinato e até suicídio se entrelaça, e te convida a explorar todas as possibilidades e, especialmente, as razões para elas.
Conforme vamos acompanhando a recapitulação, não só do crime, mas também da vida dessa família, as feridas profundas do casal aparentemente perfeito vão se reabrindo de forma muito intensa e dolorida.
Há uma cena onde, provavelmente pela primeira vez (acho que única) vemos Samuel (Samuel Theis), o marido morto, e sua esposa discutindo. Começa apenas como uma discussão ‘comum’ que vai escalando, passando a fica mais intensa e chega num ponto onde ficamos sem fôlego e com um desconforto extremo.
Me lembrou muito a cena entre Scarlett Johansson e Adam Driver em História de um Casamento e, se naquele filme apenas consolidou a indicação ao Oscar de ambos atores envolvidos, aqui permitiu que Sandra Hüller brilhasse praticamente sozinha e garantisse a sua indicação.

O julgamento é o clímax do filme. O promotor (sem nome mencionado no filme), brilhantemente interpretado por Antoine Reinartz, é brutal e implacável em sua intenção de incrimar Sandra como assassina. Há um plot twist que não vou detalher pra não estragar.
Notável também a atuação do pequeno Milo Machado-Graner, como Daniel, o filho cego do casal e testemunha chave. Me surpreendeu muito saber que ele não é cego na vida real. Uma pena também não ser reconhecido no Oscar que raramente indica crianças. Mas felizmente foi reconhecido em outras premiações. Especialmente na reta do final do filme ele brilha muito.
Menção honrosa também ao, vejam só, cachorro! O doguinho que é o guia do pequeno Daniel aparece umas 5 ou 6 vezes no filme, pelo que lembro. Mas em duas cenas ele brilha: na primeira, quando ele e o menino encontram o pai morto (nessa é só uma questão de sutileza); e a segunda cena é um choque e quem é mais sensível com animais pode até ter gatilhos. Nem consigo imaginar como foi filmada, mas deve haver muito treino por parte. Não vou dar detalhes pois é um spoiler, pois praticamente soluciona o mistério do filme.

A propósito, o final é meio que aberto a interpretações. Há uma decisão oficial, mas nunca fica claro o que de fato aconteceu, apenas o que foi definido como sendo oficial pelo julgamento.
Uma dica que vai me fazer parecer um chato cult crítico de cinema é: se possível, assista com as vozes originais. O filme mistura francês e inglês e as mudanças de língua são bastante relevantes pra história. Não sei como isso poderia ser dublado sem que essa intenção seja perdida.
Anatomia dá uma aula de roteiro. Uma premissa relativamente simples e até manjada. É um ótimo filme por conta de seus personagens, e especialmente por conta dos intérpretes desses personagens. Além disso, tem ótima produção. Poucos cenários, pouquíssimos na real, mas ótima ambientação. Deve ter sido um filme de baixíssimo custo.
A música que irrita os personagens no início do filme irrita certamente ainda mais o espectador. Meudeus, deveria haver uma premiação especial para os responsáveis por isso, porque olha, merece! Poucas vezes uma trilha sonora me provocou tanto incômodo.

É um filme que prova que basta criatividade, uma boa história, um roteiro bem amarrado, boa direção e bons atores. Merece muito as indicações que recebeu e os prêmios já ganhados em outros festivais.
Na pequena maratona que me propus a fazer para o Oscar desse ano, esse foi um dos primeiros que assisti. Até agora, o melhor. Um filme envolvente como já não via há um tempinho. Recomendo bastante.