The Patient é uma série que mostra um psicoterapeuta que recebe um novo paciente eventualmente revela ser um serial killer, confiando na ética médico-paciente. O terapeuta diz que isso só é válido se o paciente não for mais cometer crimes dali por diante. E aí que está: ele está ali porque quer parar e precisa que o médico o impeça.
Essa sinopse já é, no mínimo, intrigante. Mas é claro que o plot tem bem mais complixidade do que isso. Os personagens são profundos. Seus intérpretes entregam muito. E aqui que ela me convenceu de vez: esse drama é estrelado por Steve Carrel. Ele mesmo, o Michael Scott de The Office.
Com apenas 10 episódios, a maioria com menos de meia hora, The Patient pode ser um pouco difícil de vender a princípio. Afinal, é uma série sobre serial killer em meio a tantas outras e ainda tem um ícone da comédia como astro.
Mas o que você não vai ver no trailer, é um ponto de vista judeu da fé e do arrependimento, como poucas vezes vimos explorados, especialmente nós aqui no Brasil. Tanto, que se você for na fome de ver um foco na coisa do serial killer vai ficar desapontado.

Carell interpreta Alan Strauss, um terapeuta e autor de livros renomado que um dia acorda acorrentado ao chão em um porão. O porão é mobiliado com uma cama, um penico e um urinol de plástico.
Alan foi sequestrado por um de seus mais recentes pacientes que ele conhecia como Gene, mas na verdade se chama Sam Fortner (Domhnall Gleeson), um inspetor de saúde de restaurante cujo tratamento havia chegado a um impasse após uma franqueza inicial sobre um pai abusivo. Parte do motivo pelo qual suas sessões não deram certo é que Sam não tinha sido capaz de abrir sobre seu problema real, um detalhe talvez, o fato de ser um assassino em série.
Ele quer ajuda pra controlar essa compulsão de estrangular pessoas que o irritam ou que são grossas com ele. Mas ele não consegue se abrir sobre seu eu torturado sem arriscar sua liberdade, então ele sequestra seu terapeuta para mantê-lo por perto para uma ‘longa sessão’.

Em certos momentos, The Patient é tenso e absurdo ao mesmo tempo. Mas, na maior parte, a série é um estudo de personagem de um homem reservado lutando para lidar com seu paciente e sua situação. Alan bebe chá, usa cardigãs e exibe uma barba cinza espessa (é a regra de ouro de Steve Carell: se ele está barbudo, ele está sério).
Sua esposa (Laura Niemi) morreu recentemente, e Alan está atormentado pela culpa e raiva sobre seu afastamento de seu filho Ezra (Andrew Leeds), cuja conversão ao judaísmo ortodoxo levou a uma cisão com a família em um momento frágil.
É interessante como a série não se prende à sua premissa de ser um thriller, evitando focar em Alan constantemente quase escapando, ou mostrando Sam em suas matanças. Em vez disso, o foco é o aprisionamento de Alan e as reflexões sobre a natureza do judaísmo moderno. Durante seu confinamento, Alan sofre visões paranóicas do Holocausto.
Grande parte da jornada interior de Alan é retratada através da introdução de Charlie (David Alan Grier), um ex-terapeuta de Alan que ele gosta de revisitar em sua mente durante momentos de intenso estresse. Suas conversas imaginadas são muito interessantes, pois não só nos oferecem uma outra fuga daquele ‘cativeiro’, mas também invertem a dinâmica dos encontros entre Sam e Alan. Em suas próprias sessões de terapia, Alan não se sente compelido a ser tão resolutamente não julgador ou emocionalmente controlado; ele pode chamar Sam de louco e mandar Charlie ir para o inferno, e no processo o personagem revela camadas mais profundas de humanidade.

Com sua premissa morbidamente intrigante e dois atores talentosos em cena na maior parte do tempo, The Patient teria sido excelente mesmo que fosse apenas mais um thriller sinistro sobre um psicopata. Mas ele escolhe ir mais fundo do que isso, fazendo algumas perguntas tocantes sobre empatia das quais até mesmo aqueles de nós que não acorrentamos pessoas ao chão do nosso quarto podemos aprender.