Dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, O Agente Secreto mistura thriller político, drama histórico e suspense psicológico para construir uma narrativa que prende pela tensão silenciosa.
Ambientado no Brasil dos anos 1970, durante a ditadura militar, o filme acompanha Marcelo (que depois descobrimos ter outro nome, na verdade), um professor universitário que tenta levar uma vida discreta depois de se envolver com grupos de resistência. Só que, nesse tipo de contexto, “discrição” é praticamente uma utopia. Aos poucos, o protagonista percebe que está sendo observado, seguido e — possivelmente — caçado. A partir daí, o roteiro se transforma em um jogo de paranoia onde cada gesto, cada silêncio e cada olhar carregam um peso enorme.
A direção de Kléber Mendonça Filho mostra mais uma vez por que ele é um dos principais nomes do cinema brasileiro contemporâneo. Com recursos narrativos muito bem utilizados e reviravoltas bem construídas e não óbvias, o cineasta prefere construir tensão com paciência. O suspense nasce do cotidiano, do som ambiente, da forma como a câmera observa os personagens e os espaços.
Aliás, esse pode ser um dos principais ‘inimigos’ do filme, a paciência que ele pode demandar do público. Ele passa bastante tempo construindo personagens e trama, traduzindo bem um termo bastante usado hoje em dia: é um ‘slow burn’. Na minha opinião, uma ótima tática. Não só porque realmente acaba criando muito mais impacto uma vez que finalmente explode, mas também porque ajuda a mudar o hábito do espectador contemporâneo, de falta de paciência, de dividir a atenção com outras telas. É um filme que reeduca.
Outro ponto alto é a atuação de Wagner Moura. Seu personagem é marcado por uma contenção emocional que funciona perfeitamente dentro da proposta do filme. Ele evita exageros e entrega uma performance cheia de nuances: um homem constantemente em alerta, tentando manter o controle enquanto o mundo ao redor se torna cada vez mais hostil.

Particularmente, especialmente por já conhecer bem o trabalho de Wagner e saber do que ele é capaz, estava achando sua atuação contida até demais, diria até pouco expressiva até quase metade do filme. É um momento chave da história que ele parece destravar. Quando ele conhece Elza, uma figura importante na resistência política da época, ele começa a revelar ao espectador toda a trama que o levou até aquele momento. É ali que Wagner mostra por que mereceu tantas indicações (ganhando até um Globo de Ouro). Quando o filme começa a misturar flashbacks e até, surpreendentemente (pelo menos para mim), flashforwards (mostrando os tempos atuais), é que vamos o alcance do ator, todo seu repertório.
Contudo, é visualmente que o filme mais impressiona. A reconstituição de época é cuidadosa e cheia de detalhes, eu diria absurda. As locações, a fotografia e a direção de arte ajudam a criar um clima denso, quase sufocante, que traduz bem o sentimento de paranoia típico de regimes autoritários. Eu, que não vivi os anos 70, mas vi diversas produções da época, acreditaria facilmente que esse foi um filme realmente gravado na época em que se passa.
E temos um outro recurso narrativo que se encaixa com excelência ao sermos surpreendidos com imagens de tempos contemporâneos, para que um espectador despercebido que assistir ao filme daqui 30 anos tenha certeza que ele não foi realmente gravado no fim dos anos 1970.
Da mesma forma, não sou natural de Recife, nem mesmo sequer já visitei a região. Mas tenho total certeza de que uma pessoa que viva na cidade, e que tenha alguma lembrança de pelo menos alguns anos depois de quando a história do filme se passa, vai se arrepiar a cada cena que mostra a ambientação. Eu sei porque senti o mesmo assistindo Ainda Estou Aqui, que se passa no Rio e me é mais familiar.

A propósito, já que o citei, devo confessar que, como trama, Ainda Estou Aqui me pegou mais, me acertou mais forte. Mas como produção no todo, por mais que seja um páreo duríssimo, O Agente Secreto me parece um pouco mais à frente. Assim como achei a atuação de Wagner Moura mais cheia de nuances do que a de Fernanda Torres, porém, e novamente, seja uma disputa interessantíssima.
Isso também me faz pensar no porquê de O Agente Secreto ter feito tanto sucesso em terras estrangeiras, já que me parece um filme que atinge emocionalmente, que causa envolvimento, muito mais de forma local do que global. Talvez o hype começado em Ainda Estou Aqui, talvez o fato de que Kléber Mendonça também é o nome por trás de Bacurau (este assim com mais apelo para espectadores de qualquer lugar), ou até mesmo por Wagner Moura já ter uma carreira internacional mais proeminente.
Escrevo essa crítica no mesmo dia da premiação do Oscar, onde o filme concorre não apenas como Melhor Filme Estrangeiro, mas como Melhor Filme no geral, Melhor Elenco e Wagner Moura concorre como Melhor Ator. Portanto, não sei ainda se venceu algo. Como também assisti ao seu principal concorrente nas principais categorias, Valor Sentimental, digo que há boas chances.
Como roteiro, entendo que Valor Sentimental é um pouco mais interessante. E especialmente como montagem, seu maior mérito. Mas como um todo, O Agente Secreto o desbancaria. É um esforço inimaginável reconstruir toda cidade para situar os anos 70 de uma capital brasileira. A reta final do filme de Kléber Mendonça é de tirar o fôlego, toda a tensão pacientemente construída ao longo da história chega a um clímax intenso. Além de proporcionar a Wagner Moura uma chance final de mostrar sua versatilidade em um epílogo tocante.
Não é como se caso Valor Sentimental ou Pecadores vençam como Melhor Filme que seria uma injustiça gigantesca como foi com Central do Brasil vs Shakespeare Apaixonado (na verdade sabemos que aqui houve marmelada) ou mesmo com Ainda Estou Aqui vs Emilia Pérez. Dessa vez, a disputa é mais justa e boa. Até mesmo Michael B. Jordan desbancar Wagner Moura seria aceitável. Mas, honestamente, tentando ser imparcial, acredito que dessa vez chegamos muito fortes na disputa. Tanto que já foram dezenas de vitórias em outras premiações.

De toda forma, é muito satisfatório ver novamente, pelo segundo ano seguido, uma produção brasileira chegando com tanta força em premiações da indústria cinematográfica. E com muito merecimento, afinal, nosso cinema sempre mereceu, só não tinha os holofotes.
O Agente Secreto se consolida como um thriller político elegante, tenso e extremamente bem construído. Kleber Mendonça Filho mostra domínio absoluto da narrativa, criando um filme que equilibra suspense, contexto histórico e drama humano com muita inteligência. Somado a isso, a performance de Wagner Moura ajuda a elevar ainda mais o nível da produção, entregando um protagonista com nuances em meio a um cenário de constante vigilância e medo.