Adoráveis Mulheres é um bom filme que conta a história de uma família de grandes mulheres, ao contrário do seu título original, certamente uma ironia, Pequenas Mulheres.
Porém, sobre o que filme fala, de fato? Sobre empoderamento feminino e sobre lugar de fala. E é exatamente por essa razão, que eu, um homem hétero e cis, talvez não tenha algo tão produtivo ,e certamente, preciso a dizer sobre o filme.
No máximo, posso dizer o que percebi estando de fora do grupo a quem o filme se refere e com o qual conversa mais profundamente. Talvez eu consiga atingir o nível de empatia necessário.
O filme mostra um grupo de irmãs muito talentosas que vivem em uma época e um lugar onde não há tanto espaço para elas, ou pelo menos, não as valoriza.
Quem recebe mais destaque na história é Jo (Saoirse Ronan). Ela é uma escritora que vende suas histórias para ajudar a família, mas que não recebe o devido crédito por seu talento. Suas histórias sempre são drasticamente modificadas pelo editor a quem ela as vende, pois segundo ele, tais histórias não venderiam. Assim, ela acaba fazendo ‘finais felizes’ e retratando as mulheres nas histórias conforme a sociedade da época determinava que elas devessem ser.
Meg (Emma Watson) parece ser a mais velha das irmãs. Ela é uma ótima atriz. Ela sempre quis casar e ter filhos, sendo assim, quase uma pária entre as irmãs, mas que acaba representando bem o que é a ideia de mulheres empoderadas: ela pode ser o que ela quiser, inclusive o padrão.
Beth (Eliza Scanlen) é, segundo as próprias irmãs, a melhor delas. A mais sensível, a que tem o melhor coração. É uma exímia pianista. Parece ser o ponto de equilíbrio entre as quatro que são bem diferentes entre si.
Amy (Florence Pugh) é a mais ambiciosa das irmãs. Parece ser a que quer mais destaque, que busca alcançar um status na sociedade, seja pelo meio que for. Também é uma artista. Pinta quadros com maestria, mas não se encaixa no estilo predominante em sua época, sendo um talento a frente de seu tempo. Por essa razão, é levada a acreditar que não tem talento.
Por fim, Marmee (Laura Dern) é a mãe dessas jovens mulheres notáveis. É uma mulher que incentiva os talentos de suas filhas sem pressioná-las e tenta mediar tantos egos e personalidades diferentes. Ela mesma, parece ter como grande talento ser essa mãe incrível.
No meio de tantas mulheres talentosas, tanto personagens como suas intérpretes, temos Laurie (Timotheé Chalamet), que cumpre com competência sua parte na história. Ele acaba sendo muito importante na reta final da história, mas não dá pra dizer que é determinante nela.
No fim das contas, o filme mostra a jornada dessas mulheres para achar seu espaço na sociedade, mas que precisam se impor por suas qualidades, já que essa sociedade as rejeita.
E aqui que entra o lugar de fala, citado no início do texto. O filme mostra claramente em alguns momentos, especialmente na reta final, quando Jo acaba tirando de uma tragédia inspiração para sua primeira grande obra literária. Ao levar ao editor, mais uma vez é rejeitada, porém, quando as filhas do mesmo encontram o manuscrito do livro, acham incrível.

O que isso mostra? Que aquela não era uma obra direcionada a homens. Ou que pelo menos os homens da época não estavam prontos para entender que homens e mulheres tem percepções e anseios diferentes, até mesmo (e especialmente) para arte. Os gostos podem ser muito diferentes. Então, o que ele julgava ser ruim, jamais poderia ser bom pra ele, pois não lhe era sensível e não era sua realidade. Contudo, atingia em cheio às mulheres.
E talvez, essa mesma premissa seja válida para o próprio filme. Provavelmente o filme não seja direcionado para mim. Não que isso me impeça de compreendê-lo ou reconhecê-lo como arte, especialmente sabendo que arte não precisa ser compreendida.
Aliás, o filme tem um recurso narrativo muito interessante. Ele fica indo e voltando no tempo para contar e explicar momentos da história. Confesso que fiquei até meio perdido boa parte do filme tentando me achar na linha temporal. Mas nem por isso achei ruim, talvez seja uma das coisas mais legais da obra cinematográfica.
Quando o filme acaba, especialmente pra quem já tem uma bagagem literária/cinematográfica, fica uma clara sensação de acabamos de assistir a uma adaptação de um livro de Jane Austen. Eu cheguei até a achar que poderia ser uma espécie de cinebiografia da escritora. Sei que não é.
No fim, Adoráveis Mulheres é um bom filme. Tem uma história cativante e grandes interpretações. Tanto que está concorrendo ao Oscar em duas categorias de interpretação: Melhor Atriz com Saoirse Ronan e Melhor Atriz Coadjuvante com Florence Pugh. E olha que nem citei a sempre maravilhosa Meryl Streep, que tem um papel relevante, porém de menor tempo em tela. Além disso, tem outros aspectos técnicos que merecem muito reconhecimento.

Mais importante, o filme é necessário. Nunca é demais exaltar mulheres talentosas e através delas inspirar mulheres reais, tanto com as personagens como com suas intérpretes. Lembrando que Emma Watson, cuja personagem é a mais próxima do padrão que a sociedade da época impunha, é uma ativista dos direitos das mulheres.
Acontece que, na minha opinião, não é um dos melhores filmes do ano. Não está no patamar de seus concorrentes ao prêmio de Melhor Filme. É uma história que merece ser contada e acompanhada. Só não é um filme extraordinário. Mas isso é só a opinião de quem não é o público alvo, de alguém que pode não ter lugar de fala nesse assunto.




