O imediatismo brasileiro e sua relação com o COVID-19

Já fazia algum tempo que o blog não estava random. Ontem conversando com minha esposa tive esse insight de escrever sobre algo que notei sobre o imediatismo brasileiro e sua relação com o COVID-19.

Começamos o assunto falando sobre um estudo que dizia que a previsão é de que em Agosto ocorram até 5 mil mortes por dia no Brasil devido ao COVID. E então comentamos sobre o fato de que em muitos lugares estão flexibilizando o confinamento, sendo que a taxa de confinamento já estava muito abaixo do ideal.

Ou seja, estão voltando de uma quarentena feita mal e porcamente. É praticamente a volta dos que não foram. Muitas das poucas pessoas que estavam ficando em casa estão agora saindo também para atividades que não são essenciais. E nem vou entrar no mérito da questão política no geral e nem mesmo nos protestos contra o governo (protesto a favor nem existe).

Uma das razões principais para esse torto fim de quarentena, é que muitos outros lugares do mundo já estão o fazendo com bons resultados. Acontece que a pandemia chegou aqui bem depois desses lugares, e mais do que isso: pelo que sabemos, houve, de fato, uma quarentena com isolamento nesses lugares.

Só que no Brasil, não sabemos nos planejar. Somos imediatistas. Queremos ver o resultado agora, não dá pra ficar em casa e não ver o resultado disso. É claro que você que tá lendo isso pode não ser assim, estou falando do geral, do brasileiro médio. Eu mesmo me incluo nisso em muitos aspectos.

Minha esposa, que entende bastante de futebol, e se interessa por esportes em geral, concordou comigo quando fiz um paralelo com o futebol (não lembro se quem notou isso primeiro fui eu ou ela mesmo, mas concordamos com a analogia de toda forma).

De forma mais flagrante, notamos como treinadores normalmente duram muito em seus cargos. Se são contratados no início da temporada, a ideia é seguir com ele ao longo da mesma, fazer um trabalho de preparação, cujo resultado normalmente só é percebido com o tempo. Porém, se ele perde três jogos seguidos já, no mínimo, é cogitada sua demissão. Isso quando não é demitido logo mesmo.

Outro exemplo no futebol fica bem claro quando analisamos o caso da Alemanha, por exemplo. Eles foram vice em 86 e campeões em 90. Em 94 tiveram campanha pífia e em 98 ficaram nas quartas de final com um 3 a 0 pra Croácia. Aí em 2002 eles chegaram novamente na final e foram derrotados pelo Brasil, que estava em sua terceira final seguida e tinha um time excelente.

A partir daí, uma reformulação profunda se sucedeu no futebol deles. Tanto que em 2006, em casa, em 2010, na África do Sul, ficaram em terceiro lugar. E aí, veio 2014… Aquele 7 a 1 no Brasil, dentro de sua própria casa, dispensa explicações sobre como o planejamento e reformulação deles funcionaram.

E só pra finalizar essa analogia com futebol, pensei em outra questão interessante. Esse é um esporte coletivo. Todos tem suas funções e precisam obedecer táticas e jogar de acordo com o que a equipe e o treinador treinam, ensaiam e definem. Mas qual é (e sempre foi) o maior diferencial do brasileiro? O talento individual.

Durante muito tempo isso foi, e eu diria que ainda é (e provavelmente ainda será), nossa marca registrada. Deu certo. Talvez ainda consigamos fazer dar certo de novo. Mas não é possível dar certo sempre. Ora, é um esporte coletivo, como pode o individual ser prioridade? Não é contraditório?

E então chegamos a outro grande problema do brasileiro médio: a falta de senso de coletivo. Nossa democracia não funciona bem, em grande parte, porque pensamos demais no individual. Tanto os que votam, como aqueles que se elegem. Temos uma enorme desigualdade social, por diversas questões históricas e culturais, mas muito se deve ao individualismo também. Muitas vezes sou eu apenas, sem se importar com o outro.

Isso nos traz de volta ao COVID. Tanto o patrão quanto o empregado pensam muito mais no individual. Se eu não tenho lucro, não posso manter meu empregado. Se eu não posso manter meu emprego, não posso me sustentar. Não há meio termo, não há consenso. E não dá pra pensar no bem maior.

Tudo bem, nada é assim preto e branco apenas. Eu não sei e não posso avaliar todo o contexto de forma tão simplória. Mas eu estou viajando muito? Não há mesmo essa questão do senso coletivo do brasileiro ser quebrado e assim como seu imediatismo que piorou uma situação que já seria alarmante (como foi no resto do mundo)?

Enfim, foi um momento de divagação que tive com minha esposa ontem e fiquei com vontade de abrir aqui pra saber a opinião de outros. Na pior das hipóteses, ninguém vai participar, mas eu deixei registrada uma reflexão desses tempos atuais para a posteridade. Num cenário que pareceria ainda pior, vou atrair haters, contudo, isso dá engajamento, então caguei pra eles.

Mas gostaria de ficar com o cenário onde pessoas querendo um debate saudável comentassem o que pensam. Até porque, não só debates saudáveis, mas qualquer coisa saudável é tudo que precisamos.

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