Crônica | Fluminense campeão da Libertadores e as lições do futebol

Eu nasci em 1984. Naquele ano, a final do Campeonato Brasileiro foi disputada entre Fluminense e Vasco. No dia 27 de Maio, o Flu se sagrou campeão. Eu nasci em 4 de Setembro do mesmo ano. Meu pai era tricolor e meu irmão, então com 9 anos, era vascaíno. Acabei pendendo para o lado do meu irmão e me tornei vascaíno, diferentemente do meu pai.

Ao longo da minha adolescência, tomei muito gosto pelo futebol e desenvolvi uma persona extremamente torcedora. Em geral, torcedores de futebol beiram ao agressivo (quando não o são de fato). Eu não era diferente. Nessa persona, havia muita raiva do diferente. Na época, a disseminação de ódio, machismo, homofobia e xenofobia era intensa e normalizada. Sequer se sabia a definição desses dois últimos. E há quem suspire e pense ‘bons tempos’…

Eu, amigos e familiares no Maracanã em 2000

Eu estava exposto a isso diariamente e assentia. Por isso, mesmo tendo sido criado com muito caráter e carinho por um tricolor, passei a nutrir um sentimento de desdém (no mínimo) pelo Fluminense, e quando um pouco mais velho, acreditava que era legal dizer que tricolores eram gays, que dizer isso sobre eles era ofensivo e ofendê-los era legal.

Nem vou começar a falar do que sentia pelo Flamengo. Foi tão intenso o ódio, que até hoje ainda há resquícios, mesmo que todos os dias eu procure melhorar como ser humano e desconstruir essas concepções equivocadas. Mesmo não odiando o time e os torcedores, eu ainda tenho dificuldade em empatizar, nem mesmo consigo me sentir à vontade com roupas em tons vermelhos e pretos. Veja só o nível de trauma!

Voltando ao ponto, até a chegada da minha vida adulta, eu simplesmente rejeitava no futebol tudo que não fosse Vasco. Incluindo aí, o time do meu pai, que nunca tentou me forçar a nada, nunca interferiu na minha escolha (foi uma escolha?). Nem mesmo um dia de minha vida, ouvi alguma piada do meu pai diminuindo meu time, enquanto eu achava super legal fazer com isso com o dele, nunca a ele, é verdade, mas na rua, com outros.

Quis o destino que eu me casasse com uma tricolor. O pai dela também era, enquanto a mãe, vascaína como eu. Morei na casa deles por mais de 6 anos. Testemunhei como eles viviam em perfeita harmonia. Se o jogo era Fluminense x qualquerum, todos torciam pelo Flu. Se fosse Vasco x qualquerum, todos torciam pelo Vasco. Quando era Flu x Vasco, cada um torcia pro seu, sem piada, sem diminuir o outro.

Isso sempre foi tão natural, que não foi nada difícil entrar na onda. Aprendi com muita facilidade que torcer pelo meu time não significava torcer contra outro(s). Mais importante: eu tenho meu time de coração, outras pessoas também; muitas destas pessoas têm o mesmo time que eu, mas muito mais outras têm outros times. Pra quê e por quê ter um problema com isso?

É claro que a maturidade tem uma influência gigante nessa mudança de mentalidade. E ela vem como uma soma de diversos aspectos da vida: virei pai (isso muda muito a forma como você encara o mundo), convivi com uma grande diversidade de pessoas nos lugares onde trabalhei, conheci lugares e culturas diferentes, li muito, estudei bastante, vivi experiências boas e ruins.

Mas o fato de estar ali, envolto naquela perfeita harmonia, exposto àquele amor multiplicado, causou um baita impacto em mim. Na minha casa, onde cresci, eu não tinha esse contato. Sim, meu pai era tricolor, meu irmão vascaíno e minha mãe botafoguense. Mas a gente só via jogos juntos se fosse do Brasil, e olhe lá.

Eu, um amigo da facul, meu primo e meu irmão em São Januário

A única influência real que tive no futebol e que possivelmente me fez tão apaixonado por esse esporte, vinha do meu irmão (e ocasionalmente dos meus tios, também vascaínos). Foi com eles que fui a estádios de futebol pela primeira vez ainda adolescente.

Mas nesse meu novo lar, eu convivi com o diferente e com paixões intensas, mas distintas. Ali eles amavam futebol sim, tanto quanto (talvez até mais do que) eu. Mas sobretudo, amavam uns aos outros a ponto de respeitarem suas paixões diferentes.

Isso foi uma lição que foi além do âmbito do futebol pra mim, como tantas outas lições que vim a ter depois disso. É perfeitamente possível viver em harmonia, se amar, no mínimo se respeitar, pensando, sentindo e gostando de coisas diferentes. E você pode apoiar outros, especialmente aqueles que o amam, enquanto eles fazem escolhas que não estão de acordo com as suas.

Existem outras muitas lições que podemos aplicar na vida em geral e que podem advir do futebol, assim como Ted Lasso nos mostrou (diversas vezes) com maestria e que eu mesmo já falei outras vezes por aqui e nas minhas redes, ocasionalmente.

Ontem, dia 4 de Novembro de 2023, o Fluminense foi campeão da Libertadores da América. Um título muito importante e por muitos anos sonhado pelos torcedores do Flu. Eu assisti ao jogo ao lado da minha esposa. Torcemos juntos como já torcemos um pelo outro (dentro e fora do futebol). Na verdade, eu torci muito mais do que tenho torcido pelo meu próprio time, que, convenhamos, não tem me dado tantos motivos pra torcer nos últimos anos.

Sofri, gritei, fiquei nervoso. Extravasei no final. Me emocionei vendo entrevistas à beira do campo. Fiquei feliz pelo treinador do time, que tanto admiro. Mandei mensagem para os amigos tricolores. Não consigo lembrar a última vez que senti coisas parecidas pelo Vasco. Mas não me entenda mal, eu ainda sou vascaíno. E quero muito reacender essa chama por ele, quero que na próxima vez que eu sentir isso, seja pelo Vasco.

Pois eu aprendi que posso torcer pelo outro, me emocionar com a felicidade (e tristeza) do outro. Desenvolvi a empatia, diminuí drasticamente o ódio insensato. E sobretudo, eu amo futebol, não apenas amo o Vasco. Amo aprender as lições que esse esporte, essa paixão, me proporcionam aprender.

Espero, de coração, que uma dessas próximas lições e desconstruções que preciso trabalhar em mim me livrem totalmente da repulsa ao Flamengo, que ainda é arraigada demais e mesmo que, conscientemente, eu saiba ser sem sentido, não consigo tirar do coração de forma que só faz mal a mim mesmo e cria atrito desnecessário, até mesmo com pessoas que gosto. Veja o nível: minha filha escolheu torcer pro Athlético Paranaense e eu não consigo dar a ela uma camisa vermelha e preta por me lembrar do Flamengo…

O mundo tem muito a aprender com o futebol, só precisamos olhar direito. Tudo que me trouxe até esse momento onde escrevo esse texto, me ensinou tanto sobre tantas coisas e pessoas… Muita coisa seria melhor se mais pessoas, e por que não todos, tivessem acesso ao mesmo amor e compreensão que eu tive do meu pai, dos meus sogros e da minha esposa. Eu procuro fazer minha parte, especialmente com minha filha, mas também com aqueles que me cercam.

Espero que meu pai esteja feliz pelo Fluminense finalmente ter conquistado esse importante título internacional. E especialmente, que esteja orgulhoso da pessoa que tenho buscado me tornar todos os dias, pois muito disso passa pelo que ele me ensinou. Mesmo que, desde o que destino preparou pra nós em 1984, eu tenho trilhado caminhos diferentes do dele.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.