Crônica | As Marvels e a gigantesca dificuldade para se divertir

O que você espera ao assistir um filme de super-heróis? Depende dos heróis, depende do que o filme propõe. Certo? De forma bem geral, um filme desse gênero propõe puro entretenimento, se possível, deixar alguma reflexão ou lição. Se você for esperando apenas isso de As Marvels, você gostar bastante do filme que, no mínimo, cumpre essas expectativas.

O problema é ter outras expectativas e, mais importante, de onde vieram elas. Muito provavelmente trata-se de uma autoimposição que vem se tornando uma dificuldade cada vez maior para se divertir.

Nos últimos 15 anos, pelo menos 3 grandes filmes de super-heróis são lançados por ano. Em alguns momentos tivemos até o dobro disso. De uns três anos pra cá, até mesmo as séries de ‘tv’ passaram a pipocar e se fazerem necessárias para a compreensão total das histórias, sempre interlaçadas de alguma forma.

Por isso, todo santo dia, alguém está falando (quase sempre reclamando) na internet sobre como o gênero ‘super-heróis’ está saturado e que ninguém aguenta mais obras assim. ‘Elas perderam o encanto’, eles dizem. Não há mais nada novo de fato, surpreendente, apenas reciclagem e mais do mesmo. Isso porque nem vou começar com a turma nerdola que ‘argumenta’ que só tem lacração.

Em um ponto, preciso concordar: pra quem quer apreciar o cinema como arte, quer mais criatividade ou reflexões mais intensas, roteiros mais complexos, de fato isso está cada vez mais escasso.

No entanto, estamos falando de um gênero que há 20 anos era um subgênero: filmes com super-heróis eram classificados como de ação, aventura, comédia. De forma geral, fantasia. O crescimento foi tamanho que ele passou a ser um gênero, e agora temos filmes de super-heróis que têm sub-gêneros, o contrário de que foi outrora.

Nenhum estilo em arte, qualquer arte, abrange todo mundo. É praticamente impossível uma obra impactar gostos diversos com a mesma intensidade. Há quem ame o realismo e não entenda o abstrato, assim como há quem admire obras abstratas e sinta que o realismo não agrega nada, já que é praticamente uma fotografia.

Quando houve esse grande boom dos filmes de super-heróis, uma bolha foi quebrada, um nicho foi expandido. Pessoas que achavam esses filmes bobos demais, ou simplesmente desinteressantes, passaram a acompanhá-los ou, no mínimo, dar uma chance. Não por acaso, de 2018 pra cá (são 5 anos hoje), pelo menos 4 das 10 maiores bilheterias da história do cinema são desse (hoje) gênero.

Pessoa que não é do nicho vendo filme de super-heróis

Se você perguntasse nos anos 80 quem era o público alvo para os filmes do Super-Homem de Christopher Reeve, certamente te diriam que era o público infanto-juvenil, afinal, eram eles que consumiam as histórias em quadrinhos. E mesmo que os filmes tenham ido além desse nicho, isso se deu por ele ser um tanto inovador em aspectos técnicos.

No entanto, seu roteiros era muito simples, sem nenhuma complexidade. As atuações, boas o suficiente, mas não espetaculares. Tudo que eles pretendiam era entreter, talvez emocionar os fãs daqueles personagens, mas no geral, divertir apenas.

No final dos 80 e início de 90, com os quadrinhos buscando diversificar e furar a bolha do público infanto-juvenil com obras mais sérias, reflexivas e até pessimistas, os filmes baseados nessa mídia também buscaram um caminho parecido. E assim, mais uma vez, outro super-herói furou a bolha com filmes inovadores: Batman.

Depois disso, tivemos raras exceções de filmes e personagens baseados em quadrinhos que se propunham a ir além da diversão pela diversão, do escapismo, do puro entretenimento. E eles continuavam fazendo sucesso dentro do seu nicho, escapando muito pouco dele, dificilmente encantando. Tanto que nunca eram levados a sério o suficiente para serem considerados em premiações. Nem mesmo os Super-Homens ou o Batman de Tim Burton.

Salva exceção: a trilogia Batman do Christopher Nolan, pois a essa, até os críticos mais chatos se renderam. Aí veio o MCU, bem na mesma época do Cavaleiro das Trevas.

A proposta era ousada: um universo de super-heróis interconectado, onde um filme impacta em outro, onde em algum momento esses personagens de histórias ‘separadas’ interagem. Vai, você precisa admitir que isso é inovador, talvez a tentativa já tivesse havido antes, mas não a execução com tamanha assertividade.

Deu certo. As bolhas foram aumentando, expandindo, até se romperem de vez. Acompanhar esse ritmo ficou cada vez mais difícil, para todos. Os ‘concorrentes’ de outros estúdios falharam, pelo menos segundo os especialistas (e os próprios estúdios), mesmo que o público alvo inicial e que já era fã do gênero desde os anos 80 (pelo menos) ainda continuasse fiel. O próprio estúdio acabou sendo consumido por uma megalomania, onde precisava ser cada vez maior e acabava dando passos largos demais.

Até que o próprio público além da bolha cansou. Eles perceberam que é praticamente impossível manter o nível de criatividade e surpresa em linha de produção, em larga escala. Há filmes memoráveis ainda, mas também há filmes esquecíveis.

Mas o que se esqueceu mesmo foi o propósito: entreter, divertir. Me parece que alguns dos roteiristas, diretores e todos envolvidos nas produções ainda buscam isso. E conseguem, quase sempre. Contudo, no fim do dia, ainda é um negócio. E isso precisa render lucro. Como em algum momento já rendeu muito mais do que se esperava, a cobiça e a megalomania se uniram e agora se não há o mesmo retorno que já houve em dado momento, algo está errado.

Só que na verdade, pra quem quer um filme divertido e de escapismo (talvez um pouquinho só reflexivo), não há nada errado.

Vejamos o filme As Marvels. Quem deveria ser o público-alvo? Leitores de quadrinhos, consumidores de filmes de fantasia/ação leve/aventura, meninas (crianças, adolescentes e jovens adultas) e pessoas que só querem se divertir em geral.

Menciono meninas, porque é um filme protogonizado por 3 mulheres, sendo uma delas uma adolescente. Isso sem falar na representatividade, afinal, uma dessas mulheres é uma mulher negra e outra, a adolescente, uma filha de paquistaneses muçulmanos. Por isso, pessoas pertencentes a estes grupos, poderiam ter um interesse além da bolha, por assim dizer.

Você poderia esperar um filme profundo, que levantasse bandeiras e convidasse à reflexões mais sérias sobre nossa sociedade? Claro que poderia. E se olhar bem, tem isso lá, mas não é o objetivo, é apenas uma sugestão e, mais importante, faz parte da história. É tratado com naturalidade sem ter muito foco. Qual o objetivo então? Divertir, entreter.

E ele cumpre muito esse papel. Se você largar o olhar crítico de ‘ah, mas já vi esse filme várias vezes antes, não tem nada novo aí’, e focar no ‘olha só essa lutinha, olha que legal esse gatinho engolindo as pessoas, navinha espacial pew-pew, seres verdes metamorfos brigando com os azuis de armas avançadas, que família engraçada dessa menina!’, você vai sair da sessão com um largo sorriso e a sensação de dinheiro bem gasto.

É disso que se trata! Isso é se divertir! Às vezes fico com a sensação de que as pessoas não sabem mais se divertir e ficaram cada vez mais exigentes quanto a isso. É muito difícil prender a atenção de alguém e mantê-la entretida, sempre foi, mas está praticamente impossível. As pessoas querem sempre algo novo, incrível, e deixaram de apreciar o algo bom, simples e honesto.

Com esse boom dos filmes de super-heróis, espera-se que todos filmes te surpreendam como Guerra Infinita, ou te sujem de sangue e façam gargalhar ao mesmo tempo como O Esquadrão Suicida (o do James do Gunn, porque o do David Ayer parece que só eu me diverti), ou que te impactem profundamente como Coringa e O Batman, seja pelo roteiro ou pelo visual (de preferência ambos), ou ainda que façam rir e chorar na mesma proporção enquanto tem um pouco de fantasia repetitiva no meio (aí ninguém se incomoda) como em Guardiões da Galáxia volume 3.

Ninguém daria a menor bola pro Super-Homem do Reeve hoje. Um filme mais do mesmo. E se ainda dão, é só porque ele foi inovador na época, portanto, hoje o chamam de datado e apenas relevante pelo momento histórico. Raramente é mencionado por ser divertido ou por entreter.

As Marvels já tem uma má vontade pré-determinada por grande parte do que seria seu público alvo, já que hoje em dia os leitores de quadrinhos entraram numa de serem reacionários e simplesmente rejeitarem qualquer coisa que não se encaixem nos padrões normativos deles, antes mesmo de consumirem (e simplesmente se recusam a consumir, pelo menos é o que dizem).

Onde já se viu, colocarem três mulheres, a principal com carisma negativo, outra preta que ninguém se importa e uma menina bobalhona e elas nem mesmo usam roupa sexy, nenhuma tem um par romântico masculino, ou melhor, mal tem homens com papéis relevantes no filme?! Um absurdo.

Brie Larson é uma baita atriz. Pra mim, já havia mandado muito bem em Capitã Marvel, acho ela muito carismática no personagem, pelo menos o tanto que ela exige, já que Carol Danvers sempre precisou se impor (mesmo sendo incrivelmente poderosa) e isso soa como prepotência.

Teyonah Parris tem ainda muito a crescer e mostrar seu potencial como Monica Rambeau, mas no mínimo, entrega tudo que se espera de sua personagem tanto nas cenas de ação como nos momentos de maior carga dramática. Além emprestar toda sua beleza e poder ser a nova principal super-heroína negra do MCU, já que Letitia Wright está empenhada em jogar fora sua chance de sê-la como Shuri.

Mas ninguém é mais incrível do que Iman Vellani, a Kamala Khan/Ms. Marvel. Essa menina é um poço sem fundo de carisma! Ela é perfeita nas cenas de comédia, manda muito bem nas de ação e comove nas de drama. Eu gostaria que ela pudesse ficar ainda muitos anos nesse universo e pudesse se tornar tudo que ela pode ser, pra mim, um fenômeno que se equipara à dicotomia Downey Jr./Homem de Ferro ou Hugh Jackman/Wolverine.

Ela é perfeita pra personagem, parece que ela mesma a criou usou suas feições como base, ditando sua interpretação como o padrão, e não uma adaptação. Quem não se apaixona por Kamala/Iman, ou simplesmente quer ser o melhor amigo dela, não deve ter a habilidade de gostar de pessoas. Ela é carisma puro.

Sendo assim, independente de o roteiro de As Marvels ser ruim ou não (e não é!), quem procurasse um filme para se divertir, dar risadas, curtir com a família, e talvez até se emocionar um pouquinho que fosse, sairia satisfeito da sala de cinema, no mínimo.

Só que muitas pessoas que se propõem a isso (não estou falando da turma do ‘não vi, não gostei e tenho raiva de quem o fez’), não querem mais só isso. Honestamente, nem sei mais o que elas querem. Sei que certamente querem achar pretextos para criticar, e quando não conseguem, jogam a carta do ‘ah, é mais do mesmo e só’.

Como se ser ‘mais do mesmo’ fosse ruim. Há uma razão para coisas clichês serem clichês. Elas funcionam, as pessoas se identificam. É uma zona de conforto. E, oras, a zona de conforto é confortável. Todo mundo gosta de se sentir confortável! E um filme de super-heróis pode muito bem se contentar em ser confortável.

Coringa e O Batman, são desconfortáveis de verdade, tenho amigos que literalmente passaram mal assistindo pois eles podem dar gatilhos de ansiedade seja pela história e cenas mais pesadas ou até mesmo pela trilha sonora. E tudo bem, alguns filmes podem ser assim mesmo. Nem precisa ser de super-heróis, pode ser de fantasia ‘pura’. Ou alguém se sente revigorado assistindo Duna ou Blade Runner?

Meu ponto é: há espaço para todos e deve(ria?) sempre existir! Não tem problema você ter achado As Marvels chato ou fraco (se você assistiu, lógico!). É seu gosto. Mesmo se você for o público-alvo, ainda que, o sendo, as chances de não gostar sejam pequenas. Mas daí a argumentar que não gostou por ser ‘Sessão da Tarde demais’ ou ‘mais do mesmo’… O que você esperava e por quê?

Esse é um filme que sempre teve como propósito entreter. Se você estava disposto a isso e tinha apenas essa expectativa, certamente você venceu. Se você queria mais do que isso, eu entendo. O MCU te manipulou, te levou a acreditar que todos os filmes dentro desse universo deveriam ser inesquecíveis, gigantescos, inspirados. Uma obra comum e simples, passou a ser vista como ruim ou fraca.

O MCU nos fez virarmos Scorseses, Rubens Ewald Filhos. Somos pessoas que queremos sempre experiências incríveis e temos bagagem demais, olhamos sempre as obras com olhar crítico. Estamos perdendo a habilidade de curtir o bobo, o fácil, o confortável.

Eu posso falar por mim mesmo, óbvio. Eu sou um grande fã de super-heróis, em qualquer mídia. É muito difícil eu não gostar de algo desse nicho, mesmo algo que muita gente não gosta. Eu adorei As Marvels, certamente vou reassistir outras vezes em casa. Faço isso com todos filmes do MCU? Não. Só vi Homem-Formiga: Quantumania uma vez até agora e não tenho vontade de ver novamente. Talvez volte a ver em uma maratona, mas pode ser que pule. E não achei péssimo, como a maioria dos influenciadores do nicho que acompanho, só achei fraco e esquecível.

Mas se eu puder falar pela minha filha, uma menina de 11 anos que curte muito produções de super-heróis (ela está chateadíssima porque não poderá ver o filme do Deadpool que deve ser lançado em breve, já que não tem idade pra isso), eu diria que ela amou. Literalmente ela me disse essas palavras ao sair do cinema: ‘que filme incrível!’

Pronto, Kevin Feige. Parabéns! Você continua vencendo! Brie Larson, ouça isso! Nem todo mundo te odeia. Iman Vellani, você venceu na vida: é uma super-heroína dentro e fora das telas, Kamala Khan está muito orgulhosa de você! Teyonah, brilhe cada vez mais, literal e figurativamente. Nós estaremos daqui enviando luz pra você absorver.

É isso que importa. Quem deveria ser atingido e da forma como deveria ser, foi. Quem poderia ser, caso tivesse interesse, também foi e gostou. Porque essas pessoas ainda conseguem se divertir sem esperar muito. Elas sabem que filmes de super-heróis são, essencialmente, entretenimento. E As Marvels é puro entretenimento. Isso (também) é cinema!

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