Resenha | A Outra História do Universo DC

Quadrinhos de super-heróis são comumente associados apenas a escapismo e fantasia. Mas não precisa olhar muito além da página 2 e nem conhecer tão profundamente a nona arte para saber que isso é uma falácia.

Há muitos exemplos onde podemos encontrar discussões e reflexões profundas propostas e bem trabalhadas em obras assim. Aqui mesmo já citamos a obra prima Watchmen. Mesmo quando falamos de super-heróis mais populares, os chamados mainstream, podemos citar obras com histórias reflexivas, políticas, até militantes.

No entanto, quase sempre, os protagonistas dessas histórias são personagens que não representam minorias, pelo menos não declaradamente, abertamente. Superman é um alienígena, uma metáfora para um imigrante, mas é alto, forte e se parece com um homem (hétero) branco. Batman é um bilionário, isso já basta. A Mulher-Maravilha até se aproxima de uma militância mais aberta, e normalmente atinge, já que tem a premissa do feminismo.

Mas e quanto aos negros? Latinos? Asiáticos? E a diversidade sexual? Cadê esses super-heróis sendo protagonistas de histórias sérias, reflexivas, relevantes? Até há muito mais hoje, mas o destaque ainda é pouco. Mais do que isso, onde eles estiveram esse tempo todo, já que quadrinhos de super-heróis existem, pelo menos, desde o início dos anos 40?

A Outra História do Universo DC dá luz a super-heróis que representam mais abertamente essas causas, essas ditas minorias. E eles já estavam lá há muito tempo, só que poucos se importavam com eles. Eram, quase sempre, literalmente marginalizados.

Essa HQ é escrita pelo renomado roteirista John Ridley, vencedor do Oscar de roteiro adaptado com o filme 12 Anos de Escravidão. Ela narra a história do Universo DC a partir da perspectiva de personagens negros, latinos, estrangeiros e homossexuais. Seus protagonistas são Raio Negro, Questão/Reneé Montoya, Katana, Abelha, Guardião e Tormenta (filha do Raio Negro).

Ela é dividida em capítulos que são narrados por esses protagonistas e cada um se passa durante cerca de uma década, ou pelo menos durante um longo período, um recorte ou um retrato de um período histórico.

As histórias são sempre contadas em primeira pessoa, (quase?) nunca há os característicos balões de fala. Elas falam sobre as mágoas e desejos dos seus narradores que por vezes mudam de opinião ao longo da HQ, conforme reavaliam suas perspectivas.

Com uma atmosfera bem sombria e até cínica, essas histórias lançam críticas ácidas aos principais heróis da editora. Elas questionam por que, em meio a tantos problemas reais como fome, guerra e ditadura, os supers insistem em combater invasões alienígenas, vilões coloridos e se sacrificar em grandes crises fictícias.

A primeira história é protagonizada por Jefferson Pierce, o Raio Negro. Ele nos conta sobre suas memórias, desde a infância no Beco do Suicídio, em Metrópolis, passando pela conquista da medalha nas Olimpíadas de 1972 em Munique, seu trabalho como professor em bairros desfavorecidos, seu casamento, um evento traumático e o experimento que lhe concedeu superpoderes. E então, ele se torna um super-herói.

Conhecemos suas percepções sobre questões políticas e sociais nos EUA, tudo através de uma narrativa bem fluída e que nos prende. É interessante ver do ponto de vista de um homem negro como a imprensa abordava John Stewart, o Lanterna Verde. Ele também expressa suas impressões sobre o Superman durante o primeiro encontro deles.

Sentimos junto com ele o desconforto ao ser convidado para integrar a Liga da Justiça, a sensação de pertencimento à família dos Renegados e o choque com a tentativa de suicídio de John Stewart.

Na segunda história, a narração fica por conta de duas vozes que se entrelaçam, corrigindo as lembranças uma da outra. O casal formado por Mal Duncan (Guardião, Arauto, Vox) e Karen Beecher-Duncan (Abelha), ambos membros dos Titãs, compartilha suas experiências de adolescência nos anos 1970.

Particularmente, eu adorei a dinâmica da narrativa dessa história. É muito divertido acompanhar a troca do ponto de vista entre os protagonistas e como elas se contrastam ao mesmo tempo em que se completam.

O período foi marcado pelo enfraquecimento dos movimentos pelos direitos civis dos negros após o assassinato de Martin Luther King, a Guerra do Vietnã e a renúncia de Nixon. A forma como a história mistura momentos cruciais (mas fictícios) dos personagens nos Titãs e suas percepções sobre eventos reais, como a histórica vitória do tenista negro Arthur Ashe no torneio de Wimbledon em 1975 e os perturbadores assassinatos em Atlanta (entre 1979 e 1981, onde cerca de 28 crianças negras foram mortas) é genial.

Ainda cabe um debate interessante sobre o papel do homem e os estereótipos da masculinidade, oferecendo perspectivas únicas a partir dos olhares de um homem e de uma mulher negra. Tudo isso com uma narrativa ainda mais fluída, com ótimas escolhas estilísticas e que, apesar dos temas sérios e pesados, consegue ser contada de maneira até leve, sendo a história mais divertida da HQ.

No terceiro capítulo, conhecemos a impactante história de Tatsu Yamashiro, a Katana. Acompanhamos a jornada desde o trágico assassinato de sua família no Japão até o convite do Batman para integrar os Renegados.

Ao chegar aos EUA, a trama revela feridas históricas relacionadas aos imigrantes asiáticos, como massacres, leis de exclusão e campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

A conexão única entre Katana e Halo (Gabriele Doe/Violet Harper, é complicado, só lendo pra entender), destacada pela inesquecível noite em que ambas foram a um show da talentosa cantora Sade, é muito interessante e fundamental para a história.

No quarto capítulo, mergulhamos na história envolvente de Rene Montoya, que assume o manto de Questão. Montoya é uma policial latina (dominicana) e homossexual que protagoniza uma narrativa rica, ambientada nas transformações da polícia dos EUA desde a virada do milênio, abrangendo eventos como o 11 de setembro, à guerra ao terror e o furacão Katrina. Ou seja, baita contexto histórico.

Aqui, há reflexões impactantes sobre a militarização das forças policiais, que transformaram servidores públicos em vigilantes, como o próprio Batman. Há novamente uma menção ao tenista Arthur Ashe, cuja vida desmoronou após contrair o HIV, enfrentando o peso do preconceito.

A narrativa se aprofunda ainda mais, explorando temas como alcoolismo, suicídio e a complexidade de usar diferentes máscaras (metafóricas ou não) para se adequar às expectativas da sociedade e, ao mesmo tempo, expressar a verdadeira essência.

É uma das melhores histórias da HQ, sendo envolvente e reflexiva sem que você precise entender ou conhecer todas as citações, no entanto, quem tem um melhor background da DC, como o Cataclismo/Terremoto ou a Crise Infinita e, especialmente, da série Gotham DPGC, vai pegar ainda mais referências e senti-la de um jeito mais profundo.

A quinta e última história tem como protagonista Anissa Pierce, cujo nome de heroína é Tormenta. Vemos uma história contada a partir da perspectiva única da filha do Raio Negro. Anissa, representante de uma nova geração, enxerga e critica o lado sombrio de seu pai, mas ao mesmo tempo encontra inspiração em sua batalha para seguir os passos como super-heroína.

Raio Negro percebe seu fracasso ao ver que sua filha precisa se tornar uma lutadora, como se a sua própria luta não tivesse alcançado os resultados desejados. O conflito geracional é evidente. Um ponto muito interessante é ver como a vitória de Barack Obama, mencionada na narrativa para ilustrar esse cenário, poderia ter inaugurado uma era pós-racial.

No entanto, essa esperança é contrastada pelo aumento da violência policial de um lado, e pelo surgimento de movimentos de resistência como o Black Lives Matter do outro. Somos convidados a refletir sobre as complexidades das relações familiares, o legado de heróis e as dinâmicas sociais em constante evolução.

Como você pode notar, essa é uma HQ que convida a camadas mais profundas da reflexão, através de uma narrativa densa e impactante. A forma como o seu autor conseguiu mesclar eventos reais com elementos fictícios, é incrível, eu diria genial.

Tão genial, que ao concluir a leitura, percebemos a perfeita interconexão das cinco histórias, mesmo explorando épocas distintas. Cada trama se entrelaça de maneira engenhosa, proporcionando uma experiência de leitura coesa e cativante.

A Outra História do Universo DC é uma obra que vai além do mero entretenimento e do escapismo, proporcionando muita reflexão sobre questões reais enquanto nos conectamos com personagens familiares (ou nem tanto, e essa é a ideia) apresentados de maneira única.

Vale muito a pena e todo fã de quadrinhos, mesmo que não acompanhe super-heróis, vai curtir. E mais: é altamente recomendável para quem não tem o hábito de consumir esse tipo de arte e quer conhecer mais sobre, até mesmo começar. Em resumo, é uma obra fundamental e que transcende sua própria premissa.

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