Crônica | 30 anos sem Ayrton Senna

Quando eu era criança, eu adorava assistir Fórmula 1. Provavelmente foi incialmente sob influência do meu pai. Mas na verdade eu passei a gostar muito com o tempo. E uma coisa levou à outra: eu, assim como praticamente todo brasileiro na época, era um grande fã do Ayrton Senna. Naquela manhã de domingo em 1º de Maio de 1994, o pequeno Thiago de 9 anos estava asstindo ao GP de Ímola e viu ao vivo uma cena que o marcou pra sempre.

Senna é o primeiro ídolo que me lembro de ter. É claro que ser um vencedor, ou pelo menos alguém que sempre disputava títulos, estava sempre nos pódios e era muito talentoso ajudava muito. Mas ele era um ídolo muito fácil e acessível: ele era carismático. Depois de um tempo, conforme fui crescendo, vi que havia ainda mais atributos que faziam dele ídolo de toda uma geração. Mas para uma criança como eu, ele era inspirador.

Senna falava bem, se portava bem. Mas muito mais que isso, ele era incrível na pista. De tal forma, que mesmo uma criança ou qualquer pessoa que nunca tivesse assistido a uma corrida de qualquer categoria conseguiria perceber que o que ele fazia era impressionante.

Aquela vitória no GP do Brasil em 1991, sob uma baita chuva e com apenas uma marcha, onde ele sequer conseguia erguer o troféu de tanto que extrapolou o limite do seu corpo… Mesmo eu tenho algo em torno de 5 ou 6 anos, aquilo me marcou. Isso é sobre-humano.

Confesso que eu não lembrava de tudo, tampouco entendia o que aconteceu na hora. Mas quando vejo as imagens, juro que lembro de ter visto. Lembro de como todos ficaram impressionados. E juro também que os olhos marejam.

Dois anos depois, e desse eu me lembro com mais clareza, ele fez outra proeza também no GP do Brasil, vencendo de forma também espetacular e aplicando o que ficou conhecido como ‘drible da vaca’ no Damon Hill, fazendo com o público invadisse a pista e o erguesse em seus braços.

A verdade é que era preciso muito esforço para não gostar do Senna e era muito fácil mesmo tê-lo como exmplo, ídolo. O brasileiro médio conseguia tirar muitas lições daquele cara. Ele era o melhor que havia, quiçá que já existiu e que ainda possa existir, quando se tratava de pilotar na chuva. Veja a inspiração implícita aqui: ele era muito bom normalmente, mas ainda melhor em condições adversas.

Sim, ele tinha um talento nato. Mas há muitos assim, então ele fazia de tudo que podia para ser ainda melhor. Ele treinava muito, era muito disciplinado e focado. Quando criança, quando começa a chover, pedia para o pai levá-lo pra pista de kart ou pelo menos para o estacionamento do mercado ou shopping pra pilotar lá. Ele queria mesmo ser o melhor na chuva. Exemplo claro de que não basta ter talento, é preciso esforço e dedicação. Tem muito ídolo aí que não faz isso.

Senna vencia ou pelo menos incomodava muito os grandes e consagrados quando ainda era jovem, inexperiente e com carros muito menos competitivos. O GP de Mônaco de 1984 é a prova disso. Outra lição de vida que pode se aplicar em diversos contextos diferentes.

Eu repito: eu tinha apenas 9 anos quando ele morreu, eu não tinha como saber de tudo isso do jeito que eu sei hoje. Ainda assim, ele era meu ídolo. Ele era contagiante, encantador. Não era preciso ter noção da grandiosidade e genialidade do que ele fazia, era só olhar pra ele enquanto era grande e genial.

Do dia 1º de Maio de 94, no entanto, eu lembro com certa clareza. Eu meio que sabia o que tava acontecendo. Talvez não exatamente na hora em que aconteceu, mas logo em seguida. O exato da momento da batida na parede foi quase que um evento normal. Apesar da violência, no automobilismo batidas acontecem, aquela me parecia apenas mais uma em que tudo ficaria bem apesar de parecer feio.

Mas quando o Galvão Bueno e os comentaristas relembraram dos eventos que já haviam acontecido anteriormente naquele mesmo fim de semana, um acidente do Rubens Barrichello em que ele quebrou o nariz na sexta-feira e a morte de Roland Ratzenberger no treino classificatório do sábado, aí eu acho que a ficha começou a cair.

Depois, uma cena que, essa sim, nunca me saiu da memória. O momento em que Senna foi removido do seu carro e levado de helicópetero para o hospital. Na hora que vi ele ali imóvel, seu pescoço caído para o lado, eu senti que era algo muito sério.

Aquela foi provavelmente a primeira vez que vi uma pessoa morta. Se houve outra vez antes dessa, não lembro, pois foi essa me marcou. Ora, não apenas eu vi ao vivo o momento em que ela morreu, mas ainda por cima, era uma pessoa que eu admirava. Eu estava assistindo aquele evento por causa daquela pessoa. E eu a vi morrendo. Eu vi o momento em que meu ídolo de infância morreu.

Eu provavelmente nem tinha noção ainda do que significava de verdade a morte. Eu fui aprendendo no meio do caminho que eu nunca mais veria ao vivo o Senna pilotando. Que eu não teria nunca a chance de conhecê-lo pessoalmente. Entendi também que o mundo não pararia. Nem mesmo aquela corrida parou de fato. Apesar da morte de um dos maiores da história, a Fórmula 1 seguiu.

Eu ainda continuaria assistindo Fórmula 1 por um tempo. Eu gostava mesmo daquilo, não era apenas por causa do Senna. E não era apenas uma questão de hábito. Eu tive um pôster dele durante muitos anos. Eu gostava de desenhar carrinhos de corrida, inventava os nomes das equipes e dos pilotos. Eventualmente isso diminuiu mesmo, mas durou por bons anos.

Não lembro bem, mas acredito que o pôster que eu tinha era um desse aqui.

Da mesma forma, nos anos seguintes eu ainda veria muitos outros talentos que eu admirava morrerem. O que mais marcou depois do Senna foi a perda dos Mamonas Assassinas, talvez porque eu vivi muito o hype deles e porque a morte também foi muito trágica. Eu também senti a morte do Renato Russo, por exemplo. E eu nem era assim ainda tão envolvido com seu trabalho, apesar de sofrer influência dele. Mas acredito que o curto espaço de tempo entre todas essas mortes (apenas dois anos) me fez ir endurecendo e amadurecendo sobre essa coisa da brevidade da vida e de que nossos ídolos morrem.

E tudo começou lá com o Senna. A comoção não apenas no país, no mundo todo, também era grande demais pra que eu conseguisse acompanhar. Mas eu me lembro de flashes. Quando eu vejo as notícias hoje, os especiais que relembram sua vida e carreira, muito daquilo tudo parece que tá lá no meu subconsciente.

No ano em que ele morreu, ele estava realizando seu sonho: correr pela Williams. Ele teve a chance de apenas fazer isso oficialmente por três corridas. Até nisso ele foi inspirador, mostrando que é possível acreditar nos sonhos. Da mesma forma, também deixa uma lição de que a vida pode ser assim, você vai realizar seu sonho, mas isso pode custar muito. Então aproveite cada momento da sua vida e quando conseguir o que sonhou, valorize e aproveite ainda mais.

Ayrton me inspirou muito, assim como a milhões de outras pessoas no mundo todo. Lewis Hamilton, por exemplo, hoje um dos recordistas de vitórias, pódios e títulos na Fórmula 1, já declarou inúmeras vezes que seu ídolo e inspiração é o Senna. De fato, ele deixou legados. Exemplos de superação e dedicação. Não importa se em números ela já tenha sido superado, no que não há como contabilizar, ele jamais será.

*As imagens que ilustram esse texto são da HQ biográfica que comprei há alguns anos da Editora Nemo. Aqui no final, vou deixar o teaser trailer da série Senna que (no momento em que escrevo esse texto) ainda está para estrear na Netflix.

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