Sempre tive dificuldade para escolher coisas favoritas, por diversas razões. Mas uma, há muitos anos, escolho fácil quando me perguntam: série favorita. Lost, que é a minha resposta, completa 20 anos de estreia em Setembro de 2024. Para comemorar, estou revendo (pela trocentésima vez) e farei uma review sobre cada uma das temporadas assim que for as terminando. Aqui vai a da primeira.
Para quem, assim como eu, assistiu Lost quando ela foi ao ar pela primeira vez, posso dizer com segurança que ela continua tão boa quanto você lembra. E para quem ainda não se deu essa oportunidade – sério, o que você está fazendo com sua vida?

A primeira temporada de Lost prepara o terreno para o que muitos consideram um dos melhores mistérios de ficção científica desde então, e faz um trabalho fantástico ao apresentar a vasta gama de personagens que habitam esse mundo.
Toda a primeira temporada é tratada como uma longa introdução de 25 episódios, apenas arranhando a superfície do que o universo tem a oferecer. Cada personagem é desenvolvido com muito cuidado, e ao final da temporada você se encontrará envolvido em um intrigante (e eu diria gigante) mistério de sci-fi, mas não apenas isso.
Sem dúvida, uma das primeiras grandes diferenças de Lost em relação a outras séries que são da sua geração (até mesmo de atuais e, especialmente, das anteriores a ela) é o desenvolvimento de personagens – por mais que eu tente, não dá pra enfatizar isso o suficiente.

Muito além das amarras do gênero ‘sci-fi’, a série trata de relacionamentos e, antes de entendermos a dinâmica por trás dos vários relacionamentos que se desenvolvem ao longo de uma temporada, precisamos entender o que motiva esses personagens.
A abordagem do programa de focar em um personagem individual em cada episódio, através de flashbacks, é uma decisão brilhante. ‘Ain, mas isso todo mundo já faz, cadê a novidade nisso?’ Lembre-se que estamos falando de 2004, ninguém fazia isso com essa frequência, intensidade e brilhantismo. Não é toa que 10 entre 10 especialistas em cultura pop apontam Lost como um divisor de águas quando se fala de séries.
Episódios como “The Moth” (Charlie), “Confidence Man” (Sawyer) e “Walkabout” (Locke) nos fornecem informações fundamentais sobre as pessoas que estamos conhecendo. Esses episódios (e outros) são envolventes, emocionantes e contêm momentos cruciais para os personagens que ainda serão importantes para a história, mesmo lá na quarta temporada (por exemplo) e, sem dúvida, além dela. Como mencionei antes, isso é a base para todo o universo que nos é apresentado, e a equipe por trás de Lost acertou em cheio desde o “Piloto”.

Há vários episódios que são impressionantes e/ou que acrescentam muito para a história maior sendo contada. E é claro, há também aqueles episódios de emocionar, dar raiva e até mesmo de tirar o fôlego. Algumas vezes, você sente tudo isso em um único episódio, e nem precisa ser mais pro fim da temporada. Dê uma atenção especial ao episódio 11 (All the Best Cowboys Have Daddy Issues).
Aliás, um parantêses aqui para falar do episódio piloto de Lost já que o citei há pouco. Não é, pelo menos não era em 2004, nada comum ver um piloto de série tão grandioso em diversos níveis da palavra, que precisasse ser dividido em duas partes. Na época, foi o piloto mais caro da história (e seguiu sendo por anos), tendo custado cerca de 12 milhões de dólares. Olha esse absurdo! Todo esse dinheiro para um único episódio que, em teoria, nem se tinha certeza se a série ia ser aprovada. Se isso não mostra a grandiosidade de Lost, pouca coisa pode mostrar.
Voltando ao assunto, com tanto foco nos personagens, as principais histórias e mistérios que cercam a ilha são deliberadamente pouco desenvolvidos. Lembre-se dessa frase, voltarei a ela lá na última temporada.

Alguns exemplos de mistérios que meio que são jogados e pouco (ou nada) desenvolvidos:
- Depois da primeira noite dos sobreviventes e seu encontro com o ‘monstro’, sabemos que esta ilha está longe de ser normal, mas a partir desse ponto, só temos vislumbres.
- Ao longo da temporada, descobrimos que há outras pessoas na ilha, mas além disso, realmente não sabemos mais nada conclusivo.
- A própria escotilha (ou portinhola, dependendo da dublagem ou legendas que você está usando) é tão misteriosa que é literalmente o final da temporada, acaba sendo o mistério principal.
É claro que há muitas e boas histórias individuais que se desenrolam ao longo da temporada. O relacionamento tumultuado de Jin e Sun, a batalha de Charlie contra o vício em drogas, Claire lidando com a maternidade e o triângulo amoroso entre Kate, Jack e Sawyer são apenas alguns dos plots intrigantes que acabam fazendo a série mais parecer um grande novelão.

Os plots e a construção dos personagens foram feitos de maneira inovadora. Os flashbacks e os episódios que focavam em um personagem, talvez já tivesses sido usados como recurso narrativo em outras séries até então, mas certamente nunca juntos, não com tanta frequência e muito menos com tantos personagens ao mesmo tempo.
Até porque, por mais que Jack e Kate pareçam ser os protagonistas, é difícil definir isso com tanta clareza. Por exemplo, se eles o são, em que caixinha colocaríamos Sawyer, Locke, Sayid, Charlie, Hurley, Jin e Sun… Para mim, todos eles são protagonistas. E o roteiro os deixa brilhar como tais. Há espaço e boas histórias a serem contados por todos. Seus intérpretes também valorizam muito tudo isso, atuando de forma impecável.

Isso leva a mais um ponto no qual Lost foi um marco para as séries: ninguém é só mocinho ou só vilão. Você pode muito bem odiar a conduta moral de um personagem e ainda assim entendê-lo e ocasionalmente querer dar um abraço. Lost, desde sua primeira temporada, deixa claro que todos os personagens assim como nós na vida real, estamos repletos de áreas cinzentas e navegamos por elas ao longo da nossa jornada. Em algum momento ancoramos em ‘um lado’ do Yin-Yang, mas aquela bolinha da outra cor permanece lá.
Nunca outra série havia feito isso com tanta clareza e maestria, e a partir de Lost, a sensação é que não apenas as séries precisavam ter pelo menos alguns personagens com esse equilíbrio moral, mas também os filmes. Note como de 2004 pra cá, parece que a maioria dos vilões da cultura pop passaram a ter motivações muito mais cabíveis e com as quais nós espectadores simpatizamos. Da mesma forma, todo mocinho tem traços questionáveis. Isso sem falar na explosão de produções protagonizadas por anti-heróis ou claramente por vilões em busca de redenção de certa forma.
Entregar tudo isso na primeira temporada, não é nada fácil. Nunca havia sido feito. Por isso, seja pela qualidade da história e seus personagens cativantes ou pelos aspectos mais técnicos, Lost é até hoje tão relevante. E pra mim em particular, ainda é (e possivelmente sempre será) a melhor série de todos os tempos.

É claro que muitas outras tão boas quanto e até melhor em alguns aspectos já existiam antes ou foram lançadas depois. Mas da forma como Lost fez, desde o piloto milionário dividido em duas partes a seu season finale brilhante, dividido em três partes, nunca foi feito antes e nem superado (ou sequer repetido). Lost é excelente por si só, quando se olha só pra ela. Mas quando você a compara com outras, ela se torna ainda melhor.
Serão pelo menos mais 5 textos sobre a série ainda. Espero conseguir reassistir todas as temporadas antes de 22 de Setembro de 2024, quando Lost completa exatos 20 anos de lançamento. Mas mesmo que eu não consiga, ainda assim continuarei assistindo os episódios novamente e escrevendo ao fim de cada temporada. Então, se quiser entender por que amo tanto essa série assim como por que você também deveria, no mínimo, dar uma chance a ela, volte aqui a cada fim de temporada.