Quando Lost chega na 3ª temporada, metade do seu caminho, as coisas parecem começar a fazer um pouco mais de sentido, temos a sensação de que sabemos para onde estamos caminhando. E aí que nos enganamos.
Foi nessa temporada que os produtores começaram a perceber a necessidade de encaminhar a série para o seu desfecho. É aqui que podemos ver os roteiristas explorando direções incertas, preenchendo alguns episódios com tramas menos relevantes (embora esses episódios muitas vezes sejam subestimados).

No entanto, essa temporada ainda faz o que Lost faz de melhor: avança a narrativa enquanto entrega os momentos que nós adoramos. Essa terceira temporada se destaca consolidando os mistérios e aumentando as tensões entre os personagens. Inclusive, é sempre bom lembrar: o melhor de Lost são os personagens, sua evolução e a forma como se relacionam entre si.
A temporada começa com o episódio “A Tale of Two Cities“, que traz uma referência à abertura da escotilha na segunda temporada, mas com uma nova perspectiva. Desta vez, a cena foca em uma nova personagem, Juliet (Elizabeth Mitchell), que está ouvindo uma música animada e parece viver uma vida comum, em uma casa comum, assando bolinhos, ouvindo música e organizando um clube do livro.

É então que o voo Oceanic 815 explode acima e descobrimos que ela está, na verdade, na Ilha. Essa cena é um truque eficaz, ainda mais impactante após a revelação semelhante na segunda temporada, onde conhecemos Desmond (Henry Ian Cusick). Juliet se torna nossa janela para o mundo dos Outros, liderados por Ben (Michael Emerson).
Hoje, com o distanciamento, é muito curioso notar como fomos levados a ‘desgostar’ dela, que surge meio que como uma antagonista, inclusive gerando críticas entre alguns fãs. Mas logo fica claro que ela é mais complexa do que aparenta. Pra mim, ela é uma das mais interessantes da série, inclusive, bem próxima da complexidade de Ben.
Os episódios seguintes podem não avançar tanto na trama, mas são extremamente divertidos e reforçam o que já conhecemos. “The Glass Ballerina“, por exemplo, traz um flashback de Jin (Daniel Dae Kim) e Sun (Kim Yoon-jin), com uma cena marcante em que Jin espanca o homem com quem Sun estava tendo um caso, sem saber do affair. É claro que esse pedaço de história é extremamente importante para o futuro desses personagens.

Outro flashback que é esquisito a princípío mas que mais adiante sabemos que agrega muito é “Further Instructions“, onde o foco é Locke (Terry O’Quinn), revelando mais sobre sua vida infeliz antes de chegar à Ilha. A sensação é que começamos a entender de fato o personagem, o porquê de ele ser como é e o que o motiva.
Se por um lado esses flashbacks nos dão mais profundidade para os personagens e até mesmo nos fazem criar expectativas e laços com eles, outros claramente não levam a lugar nenhum. Já na época em que os assistimos pela primeira vez tínhamos a sensação de que perdemos um episódio, e não ganhamos nada.
Hoje, e falo muito por minha experiência, é descarada a ideia de episódio ‘filler’, só pra ‘encher linguiça’, já que os produtores precisavam entregar um número X de episódios e alguns atores precisavam de um número Y de tempo em tela. Então se esticavam subplots que não agregavam de fato, enquanto um outro subplot realmente relevante se arrastava em paralelo.
Por exemplo, por um lado as respostas começam a chegar quase tão rapidamente quanto chegaram a Ben, que, ao observar avião da Oceanic caindo do céu (lá naquele primeiro episódio), ordena que Ethan (William Mapother) encontre os destroços, finja ser um sobrevivente e “ouça, aprenda, não se envolva”, sem hesitar.
Além disso, também vemos alguns detalhes sobre o “trabalho” dos Outros sendo revelados: eles estão tentando curar a infertilidade das mulheres na ilha. Se alguns deles viveram ali por toda a vida, eles estão enfrentando o risco de extinção. Os pesadelos/memórias de Claire (Emilie de Ravin), o motivo por trás de seu sequestro, entre outros, se encaixam bem demais para parecer que os roteiristas estão inventando tudo conforme a série avança.

Por outro lado, no entanto, podemos tomar como exemplo dois novos personagens que entram na trama, Paolo (Rodrigo Santoro) e Nikki (Kiele Sanchez), que foram quase que inexplicavelmente mortos de forma abrupta. Uma grande pena, pois nós, brasileiros, sabemos muito bem que Santoro é talentosíssimo e poderia render muito mais.
Se esse episódio poderia ser facilmente ‘pulável’, já no episódio seguinte a esse (falo melhor mais adiante) temos uma outra subtrama onde Hurley (Jorge Garcia) convence Swayer (Josh Holloway) a ser gentil com as pessoas sob a ameaça de que ele seria ‘banido’. É apenas uma sequência de alívio cômico, aparentemente, mas agrega quando pensamos em evolução de personagens e as conexões que eles fazem. Diferente de todo o plot de Paolo e Nikki.
Por falar em ‘alívio cômico’, há outro episódio com Hurley, Sawyer e Jin encontrando uma Kombi na ilha que é excelente como entretenimento puro e também como evolução na trama, já que essa Kombi e o que eles econtram nela voltam a ser relevantes em outros momentos mais adiante na série.

Mas, apesar de alguns tropeços, nada chega a abalar a jornada no todo, que continua emocionante. No final da temporada anterior, começamos a questionar se os Outros eram realmente “maus”. Após duas temporadas de flashbacks que revelaram os crimes, assassinatos e passados conturbados dos protagonistas, não seria impossível que os roteiristas invertessem o jogo de forma radical.
Como eu já disse antes, ninguém é preto ou branco, todos são cinza. Os Outros podem ter uma imagem de terroristas, mas eles também têm famílias, lares e momentos de humanidade tão reais quanto os dos ‘heróis’ da série.
Voltando à questão dos episódios em particular, se ‘Exposé‘, mesmo sendo divertido e bem montado não agrega nada à história principal, os três seguintes são, não apenas empolgantes por si só, mas agregam muito.

O episódio “Left Behind” (ou ‘Deixada pra trás’ em PT-BR), aquele que eu citei vir depois de ‘Exposé’, expande a mitologia em torno do monstro de fumaça e traz um dos melhores flashbacks de Kate (Evangeline Lilly), mergulhando mais profundamente em seu passado. Finalmente entendemos a real razão por ela ser como é. Até mesmo os haters da personagem dão o braço a torcer e a vêem com empatia. Fora que a dinâmica dela com Juliet é divertida pra caramba.
Já “One of Us” nos traz um olhar mais detalhado sobre a história de Juliet, acrescentando camadas à sua complexidade. “Catch-22” (Ardil-22 em PT-BR, inclusive como aparece escrito na capa do livro encontrado no episódio), por sua vez, marca o início do fim, introduzindo Naomi (Marsha Thomason), uma misteriosa mulher que salta de paraquedas na Ilha, trazendo consigo novas questões e mistérios que mudam o curso da trama.
Ainda há tempo para descobrirmos que o pai de Locke é o “Sawyer” original, de onde James/Sawyer tirou seu nome, o homem responsável pela morte de seus pais. Josh Holloway brilha na série em geral, mas nesse episódio ele se destaca particularmente, especialmente na cena brutal e trágica em que executa o tal golpista.
“The Man Behind The Curtain” é outro episódio excelente onde mergulhamos na história de Ben na ilha, respondendo a várias perguntas enquanto levanta novas questões, como o mistério em torno de Richard (Nestor Carbonell), que não envelhece. Além disso, somos finalmente apresentados, por assim dizer, a Jacob. E é intrigante, no mínimo.
Nos emocionamos com “Greatest Hits“, focado em Charlie (Dominic Monaghan). Sua morte, que estava em andamento há algum tempo, é tratada com a seriedade que merece em “Through the Looking Glass“. A cena é uma das mais impactantes e memoráveis da série. O momento final, com o icônico “Not Penny’s Boat”, é uma despedida perfeita e dolorosa.

E acredito, ainda havia mais para ser visto no final. A verdadeira surpresa é a revelação chocante nos últimos minutos: vemos flashbacks que, na verdade como logo entendemos, são flashforwards (!). Um termo e conceito que acabava de ser inventado ali, pelo menos de forma clara e intencional.
A terceira temporada termina em alta, tornando fácil perdoar as possíveis partes mais fracas que apareceram no meio. Com os atores em excelente forma e os mistérios permanecendo tão envolventes quanto sempre, é difícil imaginar alguém não ficando ansioso pela próxima temporada. E, para a felicidade dos fãs, a quarta temporada é Lost no seu melhor.
[…] entre os três personagens centrais e que já havia incluído mais uma em um certo nível na temporada 3, mas que agora se torna ainda mais complexa. Na minha opinião, esses justamente argumentos que a […]
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