Crítica | Sr. & Sra. Smith (série)

Se a versão de 2005 de Sr. e Sra. Smith era uma tentativa de testar a química explosiva entre Angelina Jolie e Brad Pitt, a nova série do Prime Video vai por outro caminho. Em vez de casais glamourosos com segredos mortais, temos Donald Glover e Maya Erskine encarnando John e Jane — dois desconhecidos que acabam aceitando a proposta tentadora (e bem remunerada) de uma organização sombria. A missão? Fingir serem casados.

E como toda boa narrativa de espionagem que se preze, a questão aqui não é se eles vão se apaixonar, mas quando isso vai acontecer e como isso vai transformar uma situação já bizarra em algo ainda mais caótico.

O charme da série está em como ela transforma a transição de estranhos para colegas — e eventualmente amantes — em algo natural e cheio de inteligência. Glover e Erskine deslizam tão bem nessa dinâmica que você não só compra a ideia, como fica esperando pelo momento em que eles vão finalmente se conectar.

Quando o primeiro beijo rola, em uma situação tão inesperada e estranhamente hilária, faz todo o sentido. Não é só uma questão de atração física (e sim, eles são muito atraentes, vamos admitir), mas parece que o universo estava esperando esse ajuste. E se isso não bastasse, tem até uma cena de peido que, de tão surreal e espontânea, faz você se apegar ainda mais ao casal. Parece esquisito demais, eu entendo, mas pode acreditar que isso só faz você acreditar ainda mais naquilo ali e gostar mais dos personagens, na química deles.

O verdadeiro tempero da série está nas esquisitices e complexidades do casamento, que dão profundidade e a fazem ir além de uma simples (e estilosa) história de espionagem. E claro, grande parte desse brilho vem das atuações do casal protagonista. Glover, que co-criou a série com Francesca Sloane (sua parceira de produção de Atlanta), encontrou em Erskine a parceira ideal para substituir Phoebe Waller-Bridge, que saiu do projeto alegando “diferenças criativas” – ou, nas palavras dela, “alguns casamentos simplesmente não funcionam.”

Na época, eu fiquei bem triste com a saída dela. Pra quem não ligou o nome à pessoa, trata-se da protagonitsa, criadora e roteirista de Fleabag. Apenas imagine o quão sensacional seria a união do talento dela com Donald Glover?! E nem vou falar da expectativa para vê-la nas cenas de ação.

Mas olha, Erskine traz uma força tão discreta que equilibra perfeitamente com a leveza e o carisma de Glover, que, convenhamos, poderia facilmente ofuscar qualquer um se não tivesse uma colega à altura.

Cada episódio de Sr. e Sra. Smith é como um ‘mini Missão: Impossível — mas com um toque irreverente e muito menos ação desenfreada. A corporação misteriosa se comunica com o casal via mensagens de um tal “Sr. HiHi”, sempre com instruções vagas. No início, a missão parece bem decepcionante, ao ponto de John reclamar que esperava algo mais “cheio de lasers”. Mas, claro, em vários momentos, a série entrega aquela dose de ação que não pode faltar.

Nos primeiros episódios, o casal passa um bom tempo ajustando a logística da nova vida compartilhada. Conforme o relacionamento vai ficando mais sério, a série começa a mergulhar nos desafios emocionais de misturar amor e trabalho — especialmente quando esse trabalho envolve o risco constante de morte.

Outro ponto interessante é a dúvida sobre para quem exatamente eles estão trabalhando. Eles parecem acreditar que estão do lado certo da história, mas isso soa, no mínimo, um pouco ingênuo. E, como se isso não bastasse, um comentário aleatório de um agente levanta uma questão desconfortável: será que eles realmente têm liberdade para sair desse jogo perigoso? Porque, pelo visto, o plano de juntar uma boa grana e cair fora pode não ser tão simples assim.

Talvez possa parecer que é série é densa ou sombria demais, mas calma, não é bem assim. Até há momentos mais reflexivos e dramáticos, mas no geral, ela é rápida, divertida e cheia de diálogos engraçados e ao mesmo tempo inteligentes. Dá pra ver que houve cuidado em cada detalhe, com surpresas a cada virada dos clichês tradicionais.

E sim, a série adora inverter expectativas. Em vez de ser uma mulher que não consegue se desvencilhar da mãe, aqui é um cara que coloca tudo em risco por não conseguir cortar o contato com ela. Ele é o mais ‘romântico’ e idealista da relação, ela é mais ‘durona’ e fria. Esses toques tornam Sr. e Sra. Smith uma experiência tão leve quanto envolvente.

Pra quem presta atenção nesses aspectos mais técnicos, a ambientação não fica atrás: o casal vive numa casa nova-iorquina de luxo, com um vibe que parece ter saído direto do Pinterest de um millennial — cheia de plantas e arcos estilosos que qualquer um adoraria copiar.

A série também abraça um conceito bem surreal em alguns momentos. Desde a primeira cena, quando John e Jane fazem suas entrevistas de emprego com uma tela sem rosto em um prédio super genérico, a sensação é menos Missão: Impossível e mais Black Mirror. Fica essa atmosfera futurista e estranha, que te faz questionar o que está realmente acontecendo.

E o que dizer das participações pra lá de especiais!? Logo de cara, somos recebidos por Alexander Skarsgard, e depois nomes como Paul Dano, Parker Posey e Sharon Horgan aparecem para incrementar o elenco. E nem vou falar de uma outra participação que deixa nós, brasileiros, super orgulhosos. Pode parecer pachequismo, mas achei a melhor participação em termos de atuação, e ainda por cima tem papel fundamental na história. Vou guardar essa surpresa pra quando você assistir. (Tem spoiler no trailer no fim do post!)

Mas, apesar de todo esse brilho extra, a série mantém seu foco firme em John e Jane. Mesmo com cenários de tirar o fôlego, como o glamouroso Lago Como ou resorts de esqui de luxo, essas locações passam quase despercebidas, porque o que realmente importa é o que está rolando bem diante dos nossos olhos: a transição de um casamento de fachada para um relacionamento real, recheado de tensão, ação e, claro, riscos mortais.

Esqueça completamente a imagem que você possa ter sobre Sr. & Sra. Smith com Angelina e Brad. A versão de Donald Glover e Maya Erskine é infinitamente mais interessante. Vale muito a pena ser assistida e é uma pena que pareça não ter tido toda atenção que merece do grande público.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.