Crítica | Xógum: A Gloriosa Saga do Japão

Desde os primeiros minutos, Xógum já te joga numa vibe sombria, com o Japão de 1600 prestes a explodir em uma guerra civil. Anunciada em 2018, a série demorou, mas valeu a pena esperar. Estamos falando de um drama de primeira, com uma produção caprichadíssima que exige sua total atenção.

Boa parte é falada em japonês, com umas pitadas de inglês, e até substituindo o português em alguns momentos, mas relaxa, dá pra acompanhar numa boa. Só que, ó, nada de ver no modo “multitasking”, rolando o feed do Instagram no celular. Xógum pede dedicação total — sente-se, aperte o cinto e se prepare para ser imerso nesse épico.

Cosmo Jarvis interpreta John Blackthorne, um oficial inglês durão, no comando do navio Scurvy – ou melhor, do navio holandês Erasmus – que acaba naufragando nas costas do Japão. Detalhe: a tripulação nem acreditava muito que essa tal ilha existia. Quando chegam, descobrem que os portugueses mantiveram a localização do Japão em segredo, querendo garantir o monopólio comercial por lá.

Só que o clima tá tenso por lá: o taiko, o manda-chuva supremo, morreu recentemente e deixou um herdeiro que é praticamente uma criança. Isso deixa o país nas mãos de cinco senhores guerreiros que formam um conselho, mas a treta entre eles está à beira de virar uma guerra civil completa.

Lorde Toranaga, interpretado de forma brilhante pelo ator asiático mais requisitado de Hollywood nos últimos anos Hiroyuki Sanada, é o personagem através do qual começamos a enxergar todo o caos que está se formando. Ele é um herói de guerra, um estrategista nato e, por isso mesmo, o favorito para assumir o comando geral.

E, claro, também o menos querido entre os outros senhores guerreiros. A ele dizem que este não é tempo para homens justos, mas sim para um shōgun, um líder militar poderoso. Por mais que ele diga que esse é um fardo que ele não quer, logo percebemos que ele está de olho nesse trono.

Astuto, Toranaga rapidamente saca que a chegada repentina de Blackthorne pode ser uma baita jogada estratégica, e começa a manipular a situação a seu favor. Blackthorne, ou Anjin (que significa “piloto”), como é apelidado pelos japoneses por sua habilidade de navegação, traz um raro toque de alívio cômico, com sua mistura de fascínio e choque pelas tradições e costumes locais.

Mas Xógum não deixa você esquecer que essa troca cultural vai nos dois sentidos: enquanto Anjin está perplexo com o Japão, os japoneses também o veem como um estrangeiro rude, misterioso e, muitas vezes, nojento.

Blackthorne não é apenas um estrangeiro esquisito, ele também é um herege de carteirinha, ao ponto de pisar na cruz de um padre católico, o que acaba sendo bem útil. No meio do conflito entre portugueses e espanhóis, as linhas entre religião e comércio ficam embaçadas, e Xógum não foge desses assuntos. A série fala de política, diplomacia, guerra e, claro, amor — mas isso tudo vai ficando em segundo plano nos primeiros episódios. O que realmente rouba a cena no início é a violência crua e intensa desse mundo.

Decapitações rápidas e sem dó são só o começo. Tem até um momento em que um cara é lentamente fervido até a morte — o “método especial” de um senhor da guerra que dá até um sorriso enquanto isso acontece. E a câmera faz questão de te mostrar os detalhes dessa brutalidade. Isso pode ser um incômodo para muitos a princípio, mas nada que quem se acostumou com Game of Thrones e The Boys não aguente.

As armas são variadas, e as batalhas são de tirar o fôlego, coreografadas com uma beleza que explode no meio dos diálogos mais densos. Entre assassinatos e atos de lealdade extremos, há uma cena particularmente pesada de seppuku (aquele suicídio ritual japonês) que deixa você sem fôlego, mas com ramificações profundas para a história.

Xógum foge completamente daquela fórmula básica de personagens “do bem” ou “do mal”. O mais próximo de um personagem “bom” que temos é Toranaga, mas mesmo ele está longe de ser um herói clássico. Politicamente, Toranaga é um cara pragmático, mais focado em proteger sua família e sobreviver dentro de um sistema corrupto do que em reformá-lo. Ele não hesita em usar seus subordinados — e até as famílias deles — como peças num jogo de xadrez, se isso o ajudar a alcançar seus objetivos.

Os outros personagens não se encaixam em categorias de heróis ou vilões, mas são moldados pelo ambiente, suas necessidades e suas neuroses. Blackthorne, por exemplo, faz o espectador balançar entre gostar e desgostar dele. Ele tem momentos de decência e até heroísmo, mas, no fundo, é aquele cara fanfarrão, cheio de si, que impõe sua moral mesmo quando está acorrentado.

Ah, e ele é um xenófobo declarado, assim como quase todo mundo nessa história. Xógum joga limpo e não tenta fazer você torcer cegamente por ninguém — todo mundo é complexo, cheio de camadas e falhas.

No fim das contas, Xógum é um baita drama com um orçamento alto, então não dá para ser super sutil o tempo todo. Sempre que a trama ameaça ficar mais lenta, a ponto de você imaginar gente impaciente indo para as redes sociais reclamar que não entendeu o enredo, lá vem uma chuva de flechas flamejantes ou uma porta deslizante que faz jorrar sangue por todo lado.

Mas o que realmente surpreende é como ela consegue te deixar ansioso/curioso pelo que vai acontecer, como ali vai se desenrolar, especialmente mais pra reta final e mesmo nas cenas mais calmas. Fica aquele suspense no ar: será que o personagem vai manter a calma enquanto é insultado ou usado como bode expiatório? Ou ele vai perder a cabeça e partir para um ataque verbal ou físico que pode levá-lo direto para a prisão ou, pior, para o fundo do mar?

A série brinca com essa tensão interna: nós controlamos nossos impulsos ou eles nos controlam? E o mais legal de Xógum é que ele não dá uma resposta fácil para essa pergunta.

Xógum entrega a ação bem executada que você espera de uma história focada em artes marciais. Mas, em vez de grandes batalhas épicas, o escopo é mais íntimo: uma corrida entre dois barcos tentando escapar de um porto, ou um lutador solitário enfrentando um grupo de inimigos. Esse foco mais reduzido reflete o verdadeiro interesse da série: os momentos interpessoais, que, em uma guerra grandiosa, poderiam se perder no meio da confusão.

É fácil encontrar semelhanças superficiais com Game of Thrones ou A Casa do Dragão — afinal, temos cinco candidatos disputando um trono vazio e uma trama envolvendo duas amigas de infância em lados opostos de uma luta pelo poder. Além da violência, claro, mesmo que menos intensa aqui.

Mas o que une de fato essas séries é o foco nas pessoas, nos dramas humanos. É isso que dá a Xógum o potencial de ser aquela série que te prende e te transporta para outro mundo, tal como Game of Thrones fez no seu auge.

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