Review | Lost – 4ª Temporada

A quarta temporada de Lost chega trazendo uma mudança de ritmo que a a gente nem sabia que a série precisava. Se já estávamos hanituados ao estilo de storytelling usando flashbacks, agora somos apresentados a um novo conceito: flashforwards!

Não só essa ideia, mas ela contribuiu muito para esse gás novo à narrativa, mostrando o que acontece com alguns personagens fora da ilha e deixando a gente ainda mais curioso.

Essa temporada foi seriamente afetada pela greve dos roteiristas que rolou durante bastante tempo bem na época da sua produção, e por isso tivemos um número reduzido de episódios. A temporada conseguiu manter o pique, acelerando as coisas e colocando mais tensão no ar.

Lembro que na época eu não via assim, mas hoje consigo ver claramente que isso pode ter sido até melhor pra série pois evitou a barriga que claramente se criou na temporada anterior, mostrando apenas o necessários, com episódios mais objetivos para a evolução da trama.

Com essa reviravolta na forma de contar a história, a série deu um salto e tanto em termos de criatividade. A cada episódio, parece que estamos desvendando novos pedaços do quebra-cabeça — e isso só aumenta a vontade de maratonar. A chegada dos novos personagens e a iminência do resgate mexem com as dinâmicas dos sobreviventes, trazendo aquela dose extra de drama e perigo que a gente adora.

A temporada já começa com tudo no episódio “The Beginning of the End“, que foca na vida de Hurley pós-ilha. É aqui que somos apresentados ao conceito dos “Oceanic Six” — os seis sobreviventes do voo 815 que conseguiram escapar. Até agora, já sabíamos que Jack e Kate estavam entre eles, graças ao flashforward do final da terceira temporada, mas o restante ainda era um mistério.

Enquanto isso, na ilha, o grupo se divide em dois: um lado segue Jack, o “homem da ciência”, e o outro vai com Locke, o “homem da fé”. Essa divisão cria uma tensão super interessante, especialmente quando o flashforward mostra Hurley dizendo a Jack que ter seguido Locke foi um grande erro. Ainda não sabemos o que deu tão errado, mas isso só deixa a gente mais intrigado.

No episódio seguinte, “Confirmed Dead“, somos apresentados à equipe do cargueiro, incluindo um dos melhores personagens da série, Daniel Faraday (Jeremy Davies). Faraday é daqueles personagens que você quer ver cada vez mais, sempre trazendo uma pitada de mistério.

Claro que a galera da ilha não confia muito na equipe científica logo de cara, mas em “The Economist“, Sayid, Desmond e Frank (o piloto, vivido por Jeff Fahey) pegam um voo de volta ao cargueiro para tentar descobrir o que está rolando. Aí vem a bomba: não só descobrimos que Sayid é um dos Oceanic Six, mas que ele começa a trabalhar como assassino para ninguém menos que Ben Linus.

E assim, Lost faz o que sabe de melhor: te dá mais perguntas do que respostas, mas de um jeito tão incrível que você simplesmente não consegue parar de assistir.

Então vem o episódio “Eggtown“, onde há uma desacelerada no ritmo, mas que é compensado com o aprofundamento do arco de Locke, que começa a se comportar como um ditador no controle de ‘Dharma-ville’. Dá pra ver que ele está ficando cada vez mais instável, o que cria uma tensão interessante.

Paralelamente, os flashforwards focados no julgamento de Kate são bem envolventes e continuam desenvolvendo a trama dos Oceanic Six de forma intrigante. Logo depois, chega um dos maiores episódios da série, não tanto pelo que acontece em escala, mas pelo impacto que causou. “The Constant” é frequentemente considerado um dos melhores episódios de TV de todos os tempos — e com razão. Ele reúne o melhor de Lost: o drama emocional, a ficção científica de alto conceito e o uso criativo dos flashbacks e flashforwards.

O que realmente faz desse episódio uma obra-prima são as atuações impecáveis de Henry Ian Cusick (Desmond) e Sonya Walger (Penny). O relacionamento deles é um dos (se não o) mais forte e sincero da série, e, apesar de todo o drama em volta, nunca escorrega para um melodrama forçado como acontece com alguns outros casais da série. A ideia de Desmond viajando no tempo com sua consciência ainda é de explodir a cabeça, mesmo anos depois, com várias outras séries tentando fazer algo similar.

E já que mencionamos o uso criativo desse recurso, “Ji Yeon” é um episódio poderoso, com um dos melhores flashback/forwards da série. Quando você acha que Lost não tem mais como inovar, eles fazem algo brilhante: mostrar um flashback de Jin e, ao mesmo tempo, um flashforward de Sun. É inteligente, trágico e, claro, totalmente envolvente.

Meet Kevin Johnson” é um episódio que traz de volta Michael, personagem que não víamos desde que ele matou Libby e Ana Lucia e fugiu da ilha. Suas tentativas de suicídio revelam um conceito interessante: a ilha simplesmente não o deixa morrer. E guardem essa informação! Nas mãos de outro ator, Michael poderia facilmente se tornar irredimível, mas Harold Perrineau faz um trabalho tão bom que você acaba torcendo por ele novamente, mesmo com todo o histórico complicado. E isso ‘é muito Lost’!

The Shape of Things to Come” é um exemplo perfeito de como a quarta temporada está sempre em alta velocidade. Quando os mercenários do cargueiro atacam a vila em busca de Ben, você até pensa que esse conflito vai se arrastar, como aconteceria nas temporadas mais longas de 24 episódios. Mas aqui as coisas acontecem rápido: primeiro, Rousseau (Mira Furlan) é morta (que já é triste por si só!), e depois vem um dos momentos mais chocantes da série — a filha de Ben, Alex (Tania Raymonde), é brutalmente assassinada.

Esse é um ponto de virada fundamental para Ben, e Michael Emerson, como sempre, entrega uma atuação espetacular. Nada mais é o mesmo para esse personagem a partir daqui. E você começa até a entender melhor suas atitudes e, quem sabe, ter empatia por ele.

Cabin Fever” nos mergulha ainda mais no mistério de Jacob. Podemos ver que Richard Alpert (Nestor Carbonell) é meio que imortal, e fica claro que esse é um dos grandes mistérios que permeiam o fundo da série. Nesse episódio temos uma daquelas interseções entre religião/fé e ciência que a série gosta de usar.

O final da temporada, “There’s No Place Like Home“, é tão épico que precisou ser dividido em três partes, todas mantendo a tensão lá no alto. A busca de Locke e Ben para mover a ilha é tão brilhante quanto maluca, e a cena em que Ben gira a roda, acompanhada pela trilha sonora incrivelmente melodramática de Michael Giacchino, é um dos momentos mais marcantes de toda a série.

A morte de Michael também entrega um grande momento, trazendo uma redenção de última hora para o personagem. E aí vem o soco no estômago: a revelação de que o misterioso Jeremy Bentham é, na verdade, um John Locke morto. Esse desfecho dá um tom trágico que só fica mais sombrio na próxima temporada — e, de certa forma, é essa melancolia que torna a história de Locke tão poderosa.

A decisão dos Oceanic Six de mentir sobre o que aconteceu na ilha pode parecer um pouco complicada, mas amarra bem as pontas soltas e oferece a eles uma saída. É um final agridoce, porque enquanto eles finalmente escapam da ilha, os flashforwards ao longo da temporada já nos mostraram que a vida fora dela não é exatamente um final feliz.

Ainda assim, Lost entrega novamente uma das coisas que faz de melhor: um season finale extremamente emocionante e cheio de cliffhangers para a próxima temporada.

A quarta temporada como um todo é uma das mais fortes de Lost. Ela marca o ponto de virada entre o clima de suspense de sobrevivência das primeiras três temporadas e a pegada mais ficção científica e fantasia das últimas. Embora essa mudança tenha dividido o público, eu adoro o caminho que a série tomou. Na verdade, eu tenho convicção que ela sempre foi pensada para ser assim e a greve de roteiristas até a ajudou a retomar seu caminho original, enxugando o que era desnecessário e focando no que sempre foi o mais importante ali: os personagens.

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