Recomendação | Meu eu do futuro

Talvez você já tenha pensado o que diria a você mesmo mais jovem se tivesse a oportunidade. Mas e se não apenas você conseguisse te dar esse conselho, mas ainda pudesse continuar se comunicando em tempo real com você do passado? Essa é, mais ou menos, a ideia de Meu eu do futuro (My old ass no original). Um filme despretensioso e muito gostosinho, com ideia batida mas execução interessante e que emociona.

A história nos apresenta Elliott (Maisy Stella), uma adolescente prestes a encarar a faculdade em Toronto. Na verdade ela só pensa nisso, em deixar pra trás sua vida simples e viver novas e emocionantes experiências na cidade grande. Mas, antes disso, ela está vivendo um conto de verão daqueles: um romance quente com uma barista e planos para curtir os últimos momentos de liberdade na fazenda de cranberry da família.

Tudo muda quando no dia do seu aniversário ela experiementa um chá de cogumelos com as amigas e isso vira uma viagem (literalmente!) no tempo: a Elliott de 39 anos (vivida pela sempre ótima Aubrey Plaza) aparece com um único grande conselho, super casual, “Fique longe do Chad”.

Um dos maiores diferenciais dessa história, é que aqui, as duas versões (presente e futura) da personagem se comunicam em tempo real. Não pergunte como ou porquê, só compre a ideia. Pois quando o dia amanhece, Elliott percebe que a sua versão futura não foi só fruto de uma viagem psicodélica. Ela deixou seu número no celular, e assim começa um papo por mensagens que mistura conselhos de vida, sabedoria questionável e o clássico choque de gerações.

Claro que a jovem Elliott, teimosa e cheia de hormônios, não leva tão a sério os conselhos, especialmente quando um tal Chad (Percy Hynes White) aparece como aquele clichê ambulante: irritante mas carismático, irresistível e possivelmente problemático.

Com diálogos afiados e muito humor sarcástico, a química entre as duas versões de Elliott – a jovem otimista e a adulta cínica – é o coração da história. Plaza entrega aquele mix perfeito de amargura hilária e vulnerabilidade, enquanto Maisy Stella brilha como a sonhadora adolescente.

As lições que Meu Eu do Futuro entrega são aquelas clássicas e atemporais: aproveite a liberdade da juventude, aprenda com os erros e seja gentil com sua família. Ainda assim, a diretora e roteirista Megan Park faz com que esses clichês cheguem com força, especialmente no ato final, que joga uma pequena bomba emocional bem no colo do público.

Mesmo que a tal “grande revelação” seja algo que já vimos antes, é impossível não sentir o peso do momento. É uma reflexão profunda sobre como escolhas erradas podem moldar quem somos, com um toque melancólico.

Uma cena em especial me marcou e tocou muito fundo. É algo que talvez você já tenha visto em algum lugar, mas nesse filme, naquele momento e depois que você sabe o final dele, fazem tudo ficar potencializado. E se você já teve que se despedir de alguém ou de algo para sempre, ou pior, se não teve a chance de se despedir propriamente, essa cena vai te bater forte também.

Como é algo relativamente clichê, e não vai estragar a sua experiência ao ver o filme, vou parafrasear aqui (vai que é isso que te convence a assistir). Elliott estava pensativa sobre finalmente sair da fazenda da família e ir pra longe, mas há um pouco mais de contexto na situação, que a faz ponderar sobre ter que se despedir, e ela diz que odeia despedidas. Chad então traz essa reflexão:

Chad: Se lembra da última vez que você saiu com seus amigos pra brincar de faz de conta?

Elliott: Eu lembro de fazer muito isso..

Chad: Mas lembra da última vez?

Elliott: (balança a cabeça negativamente)

Chad: Não é triste? Pensar que havia uma época em que você pedalava com seus amigos, fingindo que zumbis perseguiam vocês, todo mundo sujo e se divertindo. E aí… todos foram pra casa, guardaram as bicicletas e foram dormir sem se dar conta que nunca mais fariam aquilo. O problema de não se despedir é que não podemos aproveitar a última vez que faremos aquilo.

Dois pontos que merecem ser elogiados na produção (que é assinada por Margot Robbie!) são a fotografia em geral, pois alguns enquadramentos e o uso da luz (especialmente nessa cena acima citada) é lindo e encaixa perfeitamente na história; da mesma forma, e complementarmente, as locações que são perfeitas, o lago e o bosque, a fazenda como um todo, dão todo o tom que o filme pede e nos ambienta perfeitamente.

Maisy Stella, no papel de Elliott, é uma grata surpresa: ela se destaca como uma jovem atriz cheia de instinto e carisma. E Aubrey Plaza, sempre maravilhosa, brilha como a versão mais velha de Elliott, entregando camadas de humor, ternura e um timing perfeito. Sabemos bem do seu talento para humor ácido e sarcástico (muitas vezes non-sense), e já a vimos mandando bem no drama em The White Lotus. Mas aqui ela está bem equilibrada em um pouquinho de cada.

Meu Eu do Futuro mistura o clássico ‘coming-of-age’ com um pouquinho de nada de ficção científica e um toque de comédia indie, resultando numa experiência divertida e bastante reflexiva.

No fim, o filme ainda tem aquela vibe nostálgica de comédias dos anos 2000 – brilhante, leve e pop na medida certa. É o tipo de produção que traz aquele aconchego gostoso em tempos onde esse gênero parece quase extinto. Para jovens e não tão jovens, esse pode se tornar um filme conforto cheio de alma que merece ser descoberto.

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