Crítica | Quarteto Fantástico – Primeiros Passos


Pode tirar o preconceito do bolso: Quarteto Fantástico: Primeiros Passos não é só um reboot estiloso com roupinha vintage e elenco de peso. Ele é, na real, uma das histórias mais humanas que o MCU já contou.

(Essa crítica contém possíveis spoilers sobre a trama, sem entregar surpresas relevantes, mas que podem estragar a experiência de quem quer assistir sem saber absolutamente nada sobre o filme)

E boa parte do que o filme tem de melhor passa por Sue Storm, brilhantemente vivida por Vanessa Kirby. Porque sim, o filme tem ação, tem vilão cósmico e efeitos lindos de morrer. Mas também tem uma heroína grávida tomando decisões difíceis, um grupo de super-humanos lidando com dilemas éticos reais, e uma narrativa que pergunta: você salvaria o universo se isso colocasse sua família em risco?

Grávida, poderosa, diplomática e estrategista. Sue Storm não está aqui pra ser coadjuvante nem suporte emocional do Reed. Ela é a mente por trás das decisões mais difíceis, e é dela a maior carga dramática da história. Ao colocá-la no centro da trama, o filme faz algo que nunca se viu antes em blockbusters de super-herói: mostrar uma super-herói grávida e que esse fato não a diminui em nada, mas amplifica sua potência.

E não é só visual ou simbólico. O roteiro (acertadamente) faz questão de mostrar como essa gestação pesa emocionalmente em cada escolha que Sue precisa fazer. Ela é aquela que olha o plano inteiro, mas também sente o impacto de cada possível sacrifício. Ela é racional, mas é mãe. É protetora, mas é líder.

O salto mais legal deste filme é apresentar um Quarteto já formado e publicamente reconhecido como heróis — sem enrolação de origem. Talvez o maior mérito do filme seja esse: o Quarteto Fantástico finalmente parece uma família de verdade, antes mesmo de serem super-heróis. Eles discordam, brigam, se protegem, se perdoam. Não é só uma equipe com superpoderes — é um núcleo emocional onde tudo é mais complicado porque existe amor envolvido. E é nesse amor que o filme ancora toda sua narrativa.

Pedro Pascal dá vida a um Reed mais caloroso do que o habitual (e muito mais do que costuma ser nos quadrinhos), mas sem deixar de ser o gênio metódico que a gente conhece. Ele pensa rápido, resolve problemas absurdos, mas — e aqui está a evolução — ele não é um líder autoritário. Ele escuta Sue, depende do julgamento emocional de Ben e aprende com a intuição de Johnny.

Em vez de ser o “solucionador de tudo”, Reed aqui é quase um maestro: conduz, mas não toca sozinho. Talvez isso cause estranheza, mas eu achei muito bom. Nota-se que enquanto Reed passa boa parte do tempo como cérebro da operação — o que, convenhamos, é sua especialidade —, seus poderes elásticos quase não entram em jogo. Há quem vá ficar com aquela sensação de “nerfaram o homem”, como se ele fosse apenas o engenheiro da missão e não o herói elástico mais icônico da Marvel.

Se por um lado a falta de protagonismo e um lado mais emocional do Reed que normalmente não se vê em nenhuma mídia, há algo aqui que é muito marcante do personagem: a capacidade que ele tem de criar planos mirabolantes bem como as ferramentas para executá-los. São diversas tentativas de eliminar as ameaças.

Outra característica presente nessa versão é a necessidade que ele tem de resolver as coisas. Ele sofre muito quando falha porque ele se cobra muito e não é acostumado com a falha, tem dificuldade em lidar com ela. Se não fosse as soluções encontradas por Sue e Johnny, ele teria travado. Eu acho isso excelente, mostrar um herói falho, com dificuldades humanas, mas que tem muito senso de responsabilidade.

Ebon Moss-Bachrach traz um Ben que vai além do clichê “bruto com coração mole”. Ele tem presença, tem carisma, mas sua força bruta — normalmente um dos destaques da equipe — é pouco utilizada. Normalmente, esperava-se ver o gigante rochoso arrancando alguma nave do céu ou segurando um prédio que está desmoronando. Mas dessa vez, não. Ele acaba ficando mais como o suporte emocional da equipe — o que pra mim é ótimo e uma excelente oportunidade de utilizar o talento de Ebon, um vencedor de Emmy.

Se em versões anteriores Johnny Storm era só piadinha e fogo artificial, aqui ele finalmente tem profundidade. Joseph Quinn dá vida a um Johnny com carisma, que brilha — literalmente — e tem um momento de ação espetacular onde utiliza seus poderes de forma bastante criativa.

Ele se torna crucial na conexão com a Surfista Prateada (Julia Garner). Johnny é o único que não vê só a ameaça — ele vê o sofrimento. Enquanto todos olham para o perigo, Johnny olha para o porquê. Ele quebra a frieza da análise científica com empatia pura. E essa fagulha é o que acende a virada narrativa mais importante do filme (trocadilhos intencionais).

Um adendo aqui: eu esperava um pouco mais da Surfista, até por saber também do talento de Julia Garner. Fiquei com a sensação que subutilizaram a atriz, até porque o personagem dá margem para mais.

Por outro lado, Susan Storm finalmente recebe o destaque que sempre mereceu. O filme acerta em cheio ao dar mais camadas de ação e protagonismo à personagem. Ela não é mais apenas “a que fica invisível”; ela projeta campos de força com criatividade, lidera com sensibilidade, e carrega cenas de tensão emocional que mostram o quanto ela é, sim, um dos membros mais poderosos e estratégicos do time.

O que diferencia esse Quarteto de outras equipes super-heroicas é simples: eles não são uma união de interesses. São uma família. Com tudo o que isso implica. Eles discordam, se frustram, se magoam — mas não se abandonam. E o roteiro respeita isso.

Cada um tem sua função clara na dinâmica do grupo: Reed pensa, Ben ancora, Johnny sente, Sue equilibra. E quando tudo isso funciona junto, é quando o filme atinge seu auge — não nas explosões ou nos combates espaciais, mas nas decisões difíceis, nos olhares trocados, nas escolhas impossíveis feitas em conjunto.

Reparou que eu não usei o ‘nome de super-herói’ de ninguém? Pois é, no filme também não usam. Não é Coisa, Tocha, Mulher-Invisível e Sr. Fantástico. São pessoas, com nomes reais. Achei curioso, mas talvez a ideia seja humanizar mesmo, ainda que diante de algo tão… fantástico.

Galactus (Ralph Ineson) finalmente impõe presença (especialmente nas sessões IMAX), seguido de perto pela Surfista Prateada, que traz uma elegância heroica rara em filmes desse tipo. O vilão realmente causa uma sensação de ameaça, talvez menos do que se espera de um vilão desse tamanho, literal e figurativamente. Mas a ameaça que ele impõe é muito mais angustiante do que se fosse apenas pelo seu tamanho. Ainda assim, tenho certeza que quem conhece bem o personagem nos quadrinhos vai sentir que ele também poderia entregar muito mais. O que faz sentido.

As cenas de ação são inteligentes, viscerais e visualmente impressionantes — destaque para a perseguição pela imensidão cósmica que parece saída de Interstellar. A trilha sonora de Michael Giacchino eleva tudo ainda mais. Destaque também para a cena do parto, deliciosamente agoniante.

A ambientação em uma Nova York dos anos 60 (ou pelo menos parece com o que seria essa época no nosso universo), mas turboalimentada com carros voadores, estética analógica e uma vibe meio Jetsons, é perfeita. Só vimos algo parecido em Wakanda e um pouquinho, bem de leve Talokan, reino de Namor em Wakanda Forever.

Com pouco mais de 114 minutos, o filme entrega um ritmo fluido e não enche de explicações. A narrativa funciona como uma viagem visual e emocional, onde família, heroísmo e humor coexistem com equilíbrio. Há quem diga que é uma versão mais refinada do MCU, honrando as HQs originais sem se perder.

Quarteto Fantástico: Primeiros Passos é visualmente lindo, sim. Tem ação bem dirigida, vilões marcantes e aquela vibe retrô que enche os olhos. Mas o que faz ele realmente especial é o que pulsa por baixo de tudo isso: um questionamento ético profundo, uma heroína grávida que lidera com sabedoria, e uma família que mostra que ser herói não é só salvar o mundo — às vezes é salvar quem está do seu lado.

É o filme que a Marvel precisava fazer. E o que o público talvez nem soubesse que queria ver.

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