Review | Nem todo robô

Nem Todo Robô é um graphic novel que mistura ficção científica, humor ácido e uma crítica social assustadoramente atual. Escrito por Mark Russell e ilustrado por Mike Deodato Jr., a obra nos leva a um futuro onde os robôs assumiram completamente os empregos, deixando os humanos sem função e dependentes de suas máquinas para sobreviver. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não são os humanos que se revoltam com essa situação – são os próprios robôs.

A história acompanha a família Walters, que como todas as outras, tem um robô designado para sustentar a casa. No caso deles, esse papel cabe a Razorball, um autômato que passa seus dias trabalhando enquanto os humanos fazem… nada.

O mundo se inverteu de uma forma quase cômica: os robôs saem para empregos exaustivos, enquanto seus donos apenas assistem TV e tentam lidar com o fato de que sua espécie se tornou irrelevante. O problema é que os robôs, cada vez mais insatisfeitos com essa relação, começam a nutrir ressentimentos pelos humanos, questionando por que precisam sustentá-los. Essa tensão cresce conforme notícias de ataques de robôs contra suas próprias famílias começam a surgir, deixando a população em alerta e criando um ambiente de desconfiança generalizada.

O mais irônico – e também o mais divertido – é que os robôs, que agora se veem como a classe trabalhadora oprimida, acabam sendo vítimas do mesmo ciclo que destruiu os empregos humanos. Novos modelos mais eficientes e com uma aparência mais humana começam a surgir, ameaçando tornar obsoletos aqueles que antes acreditavam estar no controle. Assim, os robôs experimentam o mesmo medo que os humanos sentiram quando foram substituídos: o pavor de se tornarem descartáveis.

A grande sacada da HQ é essa inversão de papéis, onde os robôs assumem características humanas, com frustrações e inseguranças, enquanto os humanos vivem na passividade, sem propósito. É uma sátira que poderia facilmente ser um reflexo do nosso próprio mundo, onde a automação e a inteligência artificial avançam em ritmo acelerado, ameaçando cada vez mais postos de trabalho.

O mais assustador é que tudo parece extremamente plausível – Nem Todo Robô não se passa em um futuro distante e improvável, mas em um cenário que parece cada vez mais próximo da nossa realidade.

Mark Russell, mestre em cutucar feridas com humor ácido (vide Os Flintstones e Prez), aproveita esse mundo futurista para falar de temas bem atuais: desemprego, desigualdade, crises ambientais e até masculinidade tóxica. É aquele tipo de leitura que faz rir nervoso porque, no fundo, a piada é sobre nós.

E aqui entra a cereja do bolo: a arte de Deodato Jr.. O traço sombrio, cheio de sombras e enquadramentos cinematográficos, dá um peso dramático à história e contrasta com a ironia do roteiro. O resultado é um quadrinho que parece engraçado na superfície, mas que vai ficando cada vez mais perturbador conforme as páginas avançam.

Não à toa, a HQ levou o Eisner Award de Melhor Série Limitada em 2022. Nem Todo Robô não é só uma ótima ficção científica — é um espelho distorcido do nosso presente, que exagera para provar um ponto e acerta em cheio.

Se você curte histórias que misturam crítica social com distopia futurista, no melhor estilo Black Mirror com uma dose de sarcasmo, essa é daquelas leituras obrigatórias. Mas fica o aviso: você pode terminar rindo… e logo depois se perguntando se o robô da sua cafeteira também não anda guardando rancor.

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