Antes de Jogos Vorazes dominar o cinema e antes de milhões de jogadores caírem de paraquedas em mapas de Fortnite ou PUBG, já existia uma obra japonesa que transformou a ideia de sobrevivência em espetáculo sangrento. Esse clássico é Battle Royale, romance de Koushun Takami lançado em 1999 e adaptado para mangá pouco depois, com arte de Masayuki Taguchi. Violento, cruel e ao mesmo tempo cheio de crítica social, ele se tornou um marco na cultura pop — e recentemente foi publicado em grande estilo com a edição de luxo da editora Pipoca & Nanquim.

O Japão do mangá não é exatamente o que conhecemos: é um regime autoritário que controla a população pelo medo, que na verdade nem mesmo se chama mais ‘Japão’. Uma das formas de reforçar esse poder é o Programa, um jogo mortal em que uma turma de estudantes é levada para uma ilha isolada. Cada aluno recebe uma arma (ou algo que mal pode ser chamado de arma) e precisa lutar até que só um sobreviva.
Se Battle Royale fosse apenas um banho de sangue, já teria chocado por si só. Mas o que eleva a obra a outro patamar é a profundidade dos personagens. Cada estudante reage de forma única à situação, e isso cria um mosaico de humanidade despedaçada.
São muitos personagens, mas a maioria morre rápido demais para sequer ter algum tipo de desenvolvimento mais profundo, e mesmo assim, os autores conseguem pelo menos fazer com que entendamos o que motiva cada um deles, o que buscam e por que, ou como chegaram até ali.
No entanto, alguns ganham notadamente mais espaço, e conforme a história vai se desenrolando conseguimos perceber quem são os protagonistas e até mesmo alguns que podemos rotular como vilões e antagonistas. Eu trouxe um pequeno perfil de alguns desses personagens mais importantes e melhor desenvolvidos:

- Shuya Nanahara é o protagonista que simboliza a resistência contra a brutalidade. Um garoto comum, fã de rock, que não tem talento especial para lutar nem deseja matar. Sua motivação é simples e ao mesmo tempo poderosa: sobreviver sem perder sua humanidade. Shuya representa aquele que tenta encontrar esperança mesmo em meio ao desespero absoluto.
- Noriko Nakagawa funciona como o coração da história. Ela é mais reservada e delicada, mas sua presença é um lembrete de que ainda existe bondade mesmo em cenários extremos. Sua relação com Shuya é o que mantém a narrativa emocionalmente ancorada, trazendo um contraponto à carnificina.
- Shogo Kawada, o veterano, talvez seja o personagem mais fascinante. Já tendo participado de um programa anterior, ele carrega uma visão amarga e cínica sobre a vida e a sociedade. Diferente dos outros, Shogo não se ilude: ele conhece as regras cruéis do jogo e age como mentor para Shuya e Noriko. Sua motivação não é apenas sobreviver, mas também encontrar um sentido para todo o horror que viveu.
- Mitsuko Souma é um dos retratos mais perturbadores. Fruto de uma infância marcada por abusos, ela enxerga no Programa uma oportunidade de exercer poder, manipular e dominar. Mitsuko é a personificação do trauma transformado em violência — sua sedução e crueldade a tornam uma vilã inesquecível, mas também uma vítima das cicatrizes que a sociedade deixou nela. E praticamente toda vez que está em cena, tem pelo menos um pouco de nudez envolvida, em determinado momento, dá até pra dizer que é hentai.
- Kazuo Kiriyama é o oposto: um psicopata frio, sem empatia, que mata por puro tédio ou prazer. Diferente de Mitsuko, sua crueldade não vem de um passado sofrido, mas de uma personalidade já marcada pelo vazio. Ele é a máquina de matar perfeita, o verdadeiro terror da ilha, e representa a face desumanizada da violência extrema.
Esse conjunto de personagens é o que dá profundidade ao mangá. Cada um deles encarna uma faceta da sociedade: esperança, bondade, trauma, crueldade, apatia. Ver esses elementos colidindo em uma situação de vida ou morte é o que torna Battle Royale muito mais do que uma simples história de massacre.
A arte de Masayuki Taguchi não suaviza nada, muito pelo contrário, ela acentua tudo: é gore, é exagerada, é visceral. Mas também é extremamente expressiva, transmitindo paranoia, medo e desespero em cada quadro. Não se trata apenas de violência gratuita, mas de criar uma atmosfera sufocante, onde a morte parece inevitável a cada virada de página.

Battle Royale não apenas virou um clássico da ficção distópica, como ajudou a consolidar o gênero. Se hoje falamos de Jogos Vorazes, Maze Runner, games como Danganronpa ou animes como Darwin’s Game, é porque Takami e Taguchi abriram esse caminho.
A influência vai além: o conceito do “último sobrevivente” é a base para jogos que hoje dominam o entretenimento digital, como Fortnite e PUBG. É incrível pensar que um mangá sangrento do começo dos anos 2000 pavimentou tendências que seguimos consumindo até hoje.

Mais do que nunca, é uma história para os nossos dias. Battle Royale fala sobre governos autoritários, manipulação do medo, espetacularização da violência e a fragilidade da vida em sociedade. Questões que continuam atuais, talvez até mais do que na época em que a obra foi lançada.
A nova edição da Pipoca & Nanquim dá a chance perfeita para revisitar esse clássico em grande estilo: cinco volumes omnibus em capa dura, com acabamento premium e extras que transformam a leitura em uma experiência de colecionador.
Battle Royale é brutal, intenso e inesquecível. Mais do que uma história de sobrevivência, é uma reflexão sobre poder, controle e a perda da inocência. É desconfortável, é pesado, mas também é justamente por isso que continua tão relevante.
Se você gosta de obras que misturam ação, crítica social e aquele impacto que só as grandes distopias conseguem causar, esse mangá é leitura obrigatória. Só vale o aviso: não é para qualquer estômago. É pesado, violento, e beira ao pornográfico.