Recomendação | A grande Viagem da sua Vida

A Grande Viagem da Sua Vida (honestamente, prefiro o nome original A Big Bold Beautiful Journey), é um daqueles filmes que a gente sai do cinema com a cabeça fervendo — e o coração meio bagunçado também. O longa, estrelado por Margot Robbie e Colin Farrell, brinca com as memórias como quem abre caixas antigas cheias de lembranças que a gente achava já ter superado. É sobre revisitar o passado, mas, principalmente, sobre se reconciliar com ele.

A história começa simples, quase banal: David (Farrell) tem o carro guinchado e acaba alugando um carro velho, equipado com um GPS meio peculiar. Aparentemente só mais uma road trip — até que o filme abre a porta (literalmente) pra algo bem maior. A cada destino que ele e Sarah (Robbie) alcançam, eles são convidados a atravessar portas que levam a momentos decisivos de suas vidas. O que era só uma viagem física vira uma jornada de memórias, arrependimentos e possibilidades não vividas.

Kogonada, o diretor do filme, entrega aqui um espetáculo estético. Cada plano parece uma pintura — e às vezes é quase isso mesmo. A direção aposta no silêncio, nos enquadramentos simétricos e na luz suave pra criar uma atmosfera que mistura o real com o etéreo. É lindo de ver. A trilha sonora de Joe Hisaishi (o mestre por trás das músicas do Studio Ghibli) ajuda a costurar essa sensação de sonho lúcido, embalando o público num estado meio hipnótico.

Mas esse não é só um filme “bonito”. Ele é uma reflexão sobre como a gente lida com as versões antigas de nós mesmos — aquelas que a gente tenta esquecer, mas que continuam ali, pedindo pra serem entendidas. É aqui que a comparação com Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças faz total sentido. Assim como o já clássico filme de 2004 estrelado por Jim Carey e Kate Winslet, o longa de Kogonada mergulha no labirinto da memória pra falar sobre amor, perda e arrependimento. Mas, diferente do caos emocional e visual de Brilho Eterno, Journey é mais contemplativo, mais suave, quase como se o próprio filme quisesse te abraçar enquanto fala sobre as feridas que nunca cicatrizam totalmente.

Margot Robbie está em um modo mais contido e introspectivo, bem diferente do que costumamos ver nela. Mas continua absolutamente encantadora. Colin Farrell também entrega um desempenho melancólico, com aquele olhar de quem parece estar sempre à beira de entender alguma coisa — mas nunca totalmente. Os dois funcionam bem juntos, ainda que a química entre eles não seja incendiária. É um romance que se constrói mais no olhar e nas pausas do que em beijos e declarações. E, honestamente, isso combina com o tom do filme: um amor que acontece nas entrelinhas, não nos fogos de artifício. Até porque, esse não é um filme sobre romance, como muitos podem vender ou até comprar enganados.

Nenhum dos dois tem uma performance completamente digna de premiações que os dois são capazes de entregar. No entanto, há pelo menos uns dois momentos muito emocionantes para cada um e até mesmo um momento musical bem divertido e emocionante de Collin (e olha que eu normalmente detesto esses momentos).

Dá pra entender caso você ache o ritmo lento. O filme às vezes se arrasta em metáforas visuais e momentos de contemplação que nem sempre se justificam tanto. Tem horas que parece que Kogonada se apaixona tanto pela própria estética que esquece de acelerar o motor da história. É o tipo de filme que pede paciência — e entrega recompensa pra quem aceita o convite de desacelerar junto com ele.

Também deve haver quem ache o roteiro um pouco “pretensioso”, como se o filme se levasse mais a sério do que deveria. E, ok, há momentos que soam poéticos demais, com algumas frases um pouquinho clichês demais (“a vida é feita de portas que escolhemos abrir ou não”). Mas, se você embarcar no clima, vai perceber que a beleza está justamente nisso: em como o filme transforma clichês em algo emocionalmente verdadeiro.

Visualmente, Journey lembra Peixe Grande (sim, o de Tim Burton). Ambos os filmes flertam com o realismo mágico pra falar sobre como contamos — e recontamos — nossas próprias histórias. Em Big Fish, o exagero é o meio de lidar com o passado; em Journey, é a delicadeza que faz o papel de escudo. Se Burton via a vida como um espetáculo colorido, Kogonada a enxerga como um poema de tons pastel.

E o que dizer da trilha? Joe Hisaishi faz aqui o que sabe fazer de melhor: transformar sentimento em som. A música entra como uma lembrança distante — nunca invasiva, mas sempre presente. Somada à fotografia impecável e à atuação emocionalmente precisa, ela dá ao filme um ar quase onírico.

No fim das contas, A Big Bold Beautiful Journey é exatamente o que o título promete: uma jornada ousada, bela e emocional. Não é pra todo mundo — e tudo bem. Muito embora eu o recomendaria fortemente a quem gosta de filmes que te fazem sentir alguma coisa boa quando confronta seus próprios sentimentos e também quem gosta de refletir sobre a vida. Quem quiser explosões, ritmo frenético e romances cinematográficos de manual provavelmente vai achar o filme lento demais. Mas quem topar se perder por uns instantes dentro de si mesmo, vai sair tocado, talvez até reconectado com algo que andava esquecido lá no fundo.

É um filme pra quem gosta de sentir mais do que entender. E, sinceramente? Esse tipo de jornada é sempre a mais bonita.

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