“Cientistas, atrizes ou ativistas, essas mulheres são corajosas, ousadas, determinadas e lutaram para alcançar seus sonhos e ter sucesso em seus respectivos períodos históricos. Elas venceram preconceitos e mostraram que coragem e perseverança não eram apenas ‘coisa de homem‘”
Essa é a breve descrição de Ousadas – Mulheres que só fazem o que querem que se encontra na orelha do livro. E seria difícil fazer um resumo mais preciso desse livro. Inclusive, eu não saberia dizer se é um livro ilustrado ou uma história em quadrinhos. Não sei precisar a nuance entre essas definições.
Trata-se de uma leitura muito impactante, esclarecedora e até bem divertida, já que a autora carrega bastante na piadinhas sempre que possível. E isso porque sou um homem, então certamente o livro me atinge de um jeito diferente do que atingiria uma mulher, por mais que eu esteja apurando a empatia. Eu só consigo ver pelo lado de fora, uma mulher pode se identificar mesmo com muitas das histórias ali contadas e entender mais de perto a dor dessas mulheres retratadas.
Ao todo, quize mulheres têm suas histórias contadas na obra. Cada uma delas de um período histórico e uma cultura diferente da outra, mas com problemas até que bem parecidos: a dificuldade de serem aquilo que desejavam ou precisavam ser diante de uma sociedade que não as aceitava assim.
São tantas histórias boas e impactantes que fica difícil escolher aquela que mais chama atenção. Citarei algumas apenas para que se tenha uma ideia.
Veja a história de Nzinga, por exemplo. Ela foi a caçula de 4 irmãos, todos estes homens. Nasceu em 1583 na região que hoje é Angola. Quando seu pai, o rei, morre, seu irmão mais velho sobe ao trono. Ele não é lá muito esperto, ao contrário dela. Então ela ‘sugere’ ao irmão que a deixe cuidar da política. Assim ela, aos 16 anos, negocia com os pertugueses (colonizadores daquela nação) sua retirada e anos depois se alia aos holandeses contra os portugueses que não honraram o tratado.

Anos se passam até que ela ascende ao trono e passa a estar não apenas no poder mas à frente de batalhas até uma idade avançada. Em seu reinado, ela desarmou inúmeras tentativas de golpe de estado e ainda soube manipular o imperialismo europeu, jogando uns contra os outros. Morreu aos 80 anos, sendo 40 destes no poder, e levou seu país a conquistar a paz diante dos portugueses.
Também há histórias muito mais antigas que essa. Como a de Agnodice, que viveu no Século IV Antes de Cristo em Antenas. Quando criança, ela viu muitas mulheres de sua família morrerem durante o parto pois preferiam se virar entre si a chamar um médico (homem) para ajudar. Acontece que nessa época as mulheres não podia exercer medicina pois havia a suspeita de que elas praticavam abortos.

Quando mais velha, ela vai escondida estudar medicina no Egito. Depois de formada volta para a Grécia mas finge ser um homem. Obviamente ela encontrava resistência de muitas mulheres que não estavam satisfeitas com o tratamento que os homens davam a elas. Mas aos poucos ela vai ganhando a confiança de algumas e salvando vidas. Até que seu nome ganha fama e ela se torna ‘o’ melhor ginecologista de Atenas.
Isso gera o ciúme de seus colegas que inventam que ela estava abusando de suas pacientes. Ela vai a julgamento e, acuada, revela a ‘prova’ de sua inocência, mostrando que é uma mulher. Indignados (e humilhados), eles a condenam à morte. Eis que uma multidão de pacientes se revolta e obrigam seus maridos a revogarem a pena, insistindo que eles é que têm que melhorar. Assim, eles voltam atrás na sentença e o exercício da medicina por mulheres volta a ser autorizado na Grécia.
Acho que a história mais forte pra mim foi a de Leymah Gbowee. Ela nasceu em 1972 na Libéria e atravessou diversos problemas familiares e sociais durante sua infância e adolescência, tendo até sido agredida pelo primeiro namorado. Tudo ficou pior quando em 1989 um grupo rebelde iniciou uma guerra civil.
Com pessoas atirando umas nas outras pelas ruas, Leymah, aos 17 anos, deixa de ser adolescente e passa a enfrentar problemas que adulto nenhum deveria enfrentar. Ela, sua mãe e irmãs passam a viver num campo de refugiados e ela se apaixona por um homem mais velho lá. Porém, logo ele começa a ter um comportamento violento.

Quando ela estava prestes a abandoná-lo, descobre estar grávida. Então acaba ficando com ele, que cada vez mais bate nela e até abusa sexualmente. Ela acaba entrando em depressão ao passo que a guerra civil se agrava. Pra piorar, engravida novamente no auge dessas situações.
Sua vida acaba ganhando sentido novamente quando ela passa a desenvolver um trabalho social com a Unicef em apoio às vítimas da guerra. Ela ajuda inúmeras pessoas e consegue superar suas próprias dificuldades. Além disso, se envolve nas causas políticas e anos depois consegue não apenas participar de forma produtiva das negociações pela paz como incentiva as mulheres a pariciparem das eleições. Como resultado, acabam elegenda a primeira presidenta da África. Em 2011 ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Sua história é mesmo uma das mais pesadas. Mas também há histórias fofas, e até um tanto engraçadas. Como disse, a autora consegue dar um humor ácido e irônico ao texto que encaixa com os temas abordados. Se não fosse pelas histórias mais tensas, seria um livro que eu recomendaria para todas meninas, de qualquer idade. Mas não é o caso. Contudo, para adolescentes, eu diria a partir de uns 14 anos de idade, já é uma leitura que pode ser muito construtiva e empoderadora.
De toda forma, Ousadas é um livro que todas as pessoas deveriam ter acesso pois ajudaria muito na igualdade de gênero e respeito. Inclusive, através dele eu conheci muitas histórias as quais acredito que todos deveriam estudar na escola, verdadeiras aulas de história, política, cidadania e muito mais. Esse é um livro que certamente ajudaria na construção de um mundo melhor caso fosse de conhecimento de mais pessoas.