Crítica | O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (temporadas 1 & 2)

Desde quando foi anunciado que haveria uma série se passando no universo de O Senhor dos Anéis, eu fiquei empolgado. E a cada nova informação, o hype aumentava. A série teria um orçamento astronômico, fazendo jus à franquia. Com duas temporadas já entregues, todas as minhas expectativas estão sendo cumpridas. Os Anéis do Poder é um verdadeiro espetáculo visual e, especialmente nessa segunda temporada, entrega tudo que um fã de fantasia gosta e quer ver.

Dentro do meio nerd/geek, existem fandoms que são muito chatos exigentes. Pode-se dizer que o fãs das obras do Tolkien são alguns dos piores. Agradar essa galera é praticamente impossível, quase sempre a única resposta certa com eles é: deixa a obra quieta lá, não mexam!

E, a meu ver, somente isso explica o tamanho da rejeição à primeira temporada de Anéis do Poder. Como eu só conheço a obra através das adapatações pro cinema, achei a série muito boa. Diria até que no mesmo nível dos filmes. Tanto nos aspectos técnicos quanto na história, no roteiro.

A quem me pergunta o porquê de o público em geral não ter curtido tanto a primeira temporada, eu nem sei dizer, exceto por essa questão de exigência, ou talvez até mesmo expectativas altas demais. Como eu não vi nenhum defeito e não fiz questão de ler ou ver vídeos das críticas, nem imagino o que os ‘especialistas’ disseram.

Agora, se você, assim como eu, é fã da obra de Tolkien sem essa sensação de ‘não mexam na minha obra’ e que quer vez mais desse universo, o final da primeira temporada de Os Anéis de Poder deve ter trazido aquele arrepio de emoção.

Afinal, os tão aguardados Anéis finalmente apareceram, e de um jeito épico, marcando o ponto alto do episódio final. Para quem estava esperando que as promessas de transformação da Terra-média se cumprissem, a segunda temporada entrega o que prometeu. A história mergulha fundo na trama de traições e intrigas em torno da criação e da distribuição dos anéis, trazendo um drama intenso que explora como o orgulho e o autoengano podem ser perigosos.

Sauron (Charlie Vickers) pode ser o grande vilão da série, mas ele não é o único que tenta roubar a cena nessa segunda temporada. Lorde Celebrimbor (Charles Edwards), o ferreiro élfico de Eregion , também briga pelo título de personagem mais impactante. Ele é o coração e a alma dessa temporada, com seu desejo desesperado de salvar seu povo o arrastando para as sombras.

Celebrimbor acaba envolvido nos esquemas de Sauron, agora disfarçado como Annatar, o Senhor dos Presentes. Esse arco é um dos mais fortes da temporada, se não o principal.

Charlie Vickers, que brilhou como o misterioso e dividido Halbrand na primeira temporada, demora um pouco para entrar no ritmo de seu novo papel como o manipulador mestre Sauron. Mas, quando ele finalmente abraça a vilania de vez, fica claro que a espera valeu a pena. Vickers se diverte com a maldade do personagem, mostrando o quanto Sauron é expert em dizer exatamente o que as pessoas querem ouvir. Ele encarna aquele vilão clássico, o abusador manipulador, que distorce a realidade e culpa suas vítimas por seu próprio sofrimento, descartando qualquer um que o desafie.

Uma das cenas mais marcantes envolve Galadriel (Morfydd Clark) e o líder orc Adar (Sam Hazeldine, que, aliás, substitui Joseph Mawle com perfeição) discutindo como Sauron os fez se sentir importantes, como se fossem o centro do mundo. Essa cena acerta em cheio ao mostrar o poder ardiloso de Sauron – ele não precisa de força bruta para dominar, basta mexer com as fraquezas e inseguranças alheias.

Já os elfos se encontram num dilema sério sobre confiar ou não nos anéis e somente Elrond (Robert Aramayo) pode ser a voz insistente da cautela. Enquanto ele tenta convencer os outros, do lado dos anões a história é bem diferente. O rei Durin III (Peter Mullan) cai rapidinho na tentação, e não dá para negar que ele já tinha suas falhas – o cara chegou ao ponto de tirar o título de seu próprio filho, Durin IV (Owain Arthur), só porque o rapaz queria ajudar os elfos. Com o reino de Durin enfrentando uma crise, a promessa de não só salvação, mas também de enriquecimento, parece boa demais para resistir.

As cenas entre pai e filho são umas das mais emocionantes da série. O rei tenta manipular o príncipe, oferecendo tudo o que ele sempre quis, mas com uma condição distorcida: concordar em lucrar com o conflito que está por vir. Quem salva Durin IV dessa encrenca emocional? Sua esposa Disa (Sophia Nomvete), que rouba a cena como sempre. Com sua bravura e humor afiado, ela é a força que empurra Durin a tomar as decisões certas, ao mesmo tempo que entende o quanto é doloroso ver fraqueza no homem que ele tanto admira.

Se há algo no desenvolvimento da trama que realmente pode incomodar um pouco, é o fato de que quanto mais ela se afasta das conspirações de Sauron, mais o enredo começa a perder força. Isildur (Maxim Baldry), que a gente sabe que vai ter um papel crucial na luta contra o vilão, passa a maior parte da temporada… meio perdido. Seu maior feito? Lutar contra monstros aleatórios que, convenhamos, são visualmente incríveis – nenhum fã chato da obra de Tolkien pode reclamar ‘um A’ quando o assunto é estética. Na segunda temporada a série continua sendo um espetáculo para os olhos assim como foi a primeira, com paisagens e criaturas que deixam qualquer fã de fantasia babando.

Mas, tirando os visuais, o arco de Isildur ainda é bem fraco, ou pelo menos de desenvolvimento lento. Ele se envolve num romance dispensável com Estrid (Nia Towle), uma refugiada de Southlands, e embarca numa aventura que parece existir apenas para ajudar Theo (Tyroe Muhafidin) a lidar com a culpa de transformar sua terra natal em Mordor.

Voltando aos aspectos técnicos, a música, peça-chave no universo de Tolkien, também é utilizada com maestria. Desde momentos íntimos, como personagens cantando ao redor de uma lareira, até cenas em que canções evocam poder mágico, a trilha sonora é uma ferramenta poderosa. Ela constrói uma atmosfera única, com temas que refletem cada cenário e intensificam a tensão nos momentos de batalha, criando uma experiência audiovisual que eleva o épico a outro nível.

Toda a jornada das pequenas Pés-Peludos com o ‘mago desconhecido’ também se arrasta um pouquinho, porém da pra ver claramente que se trata de desenvolvimento dos personagens. Particularmente, outro ponto negativo de roteiro foi a revelação do nome do tal mago. Me pareceu bem preguiçosa a forma escolhida para se chegar ao nome dele. Mas nada que atrapalhe a história de fato, não faz diferença. Só poderia ter sido mais criativa, ou simplesmente que ele se lembrasse do nome, que fosse algum tipo de magia que o impedia de lembrar, sei lá.

Em conclusão, nenhum dos pequenos problemas que a série tem justificam as reclamações exageradas dos fãs. Quem é mais casual pode adorar, especialmente quem só conhece a obra pelos filmes. Ou simplesmente achar chato como acharia qualquer outra obra de Tolkien.

Meu maior termômetro pessoal é minha filha, de 12 anos. Ela curte bastante obras de fantasia e se emocionou muito com a série. Se empolgava pra assistir, aguardava com ansiedade os próximos episódios. Se irritava com Sauron, Pharazôn e Kemen. Torcia por Elrond e Galadriel, esperava que Celebrimbor se libertasse e enxergasse seus erros. E pra mim, é isso que importa. Obras de fantasia precisam encantar e despertar emoções, especialmente pra quem não conhece nada ou pouco sobre a obra. E Anéis de Poder entrega isso muito bem, só quem faz questão de achar problemas nela ou já vai de má vontade que não percebe isso.

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