Resenha | Tokyo Ghost (HQ)

Com uma pegada forte de cyberpunk, Tokyo Ghost é uma HQ que não perdoa e dispara críticas afiadas. Mira direto nos gigantes tecnológicos, nas redes sociais e, de quebra, expõe a idiotização das massas, líderes populistas e a superficialidade das elites. E tudo isso com aquele toque visual que mistura beleza e caos – o clássico que só o cyberpunk sabe entregar.

Falemos então um pouco sobre a história da HQ. Debbie Decay conhece o jogo da sobrevivência desde pequena. Cresceu na pobreza, enquanto sua mãe mergulhava fundo em fantasias virtuais, tão obcecada que largou a família para se virar sozinha. Sem conseguir a atenção ou o amor da mãe, Debbie encontra consolo em Teddy, o vizinho da casa ao lado.

Os dois acabam formando uma conexão forte – tipo aquele clichê “é nós contra o mundo” – e até encontram um jardim secreto no meio de um planeta já devastado. Lá nasce um romance e um clube antitecnologia, a última tentativa de se agarrar a um mundo que não está pixelado. Só que, como toda boa história cyberpunk, essa calmaria não dura muito tempo.

Conforme os anos passam, Debbie e Teddy, ali já adolescentes apaixonados um pelo outro, acabam na mira de uma gangue doida por views. Os caras transformam a desgraça alheia em reality show: espionam gente comum e depois descem a porrada até quase matar, tudo em frente às câmeras. É a busca desesperada por atenção, fruto de uma geração criada por pais mais conectados com gadgets do que com os próprios filhos. Soa familiar, né?

Teddy quase ‘vai de base’ (como diriam os jovens) e decide que precisa de um upgrade para se proteger. Ele injeta uma substância neurológica que lhe dá força sobre-humana, mas o preço é alto: adeus emoções humanas. Ele vira o ‘delegado’ Led Dent, um anti-herói brutal que deixa Debbie cada vez mais isolada emocionalmente. Mesmo assim, a co-dependência misturada com amor juvenil dela grita mais alto, e ela permanece ao lado dele – agora como cúmplice, mas com a missão de protegê-lo.

Led Dent não perdoa e parte para a vingança contra a gangue. Só que o ciclo de violência não tem fim: cada golpe só alimenta mais o reality insano e, no fim das contas, ninguém sai ganhando. É tipo um comentário pesado sobre como nossa sede por likes e shares só perpetua o caos.

É assim que Teddy se torna outra pessoa e acaba virando uma lenda entre os justiceiros daquela sociedade distópica. E por mais que Debbie o ajude nisso, já que alguém precisa impor limites e também pelo fato de que esse é o único jeito de estar junto de seu amado, tudo que ela gostaria e que ele pudesse apenas ser o mesmo garoto que ela aprendeu a amar ainda criança.

O grande sonho de Debbie? Deixar toda essa loucura high-tech para trás e viver uma vida simples ao lado de Led. E para isso, o destino perfeito seria Tóquio, que virou um refúgio old school: natureza intocada, nada de aparelhos eletrônicos, e um lifestyle baseado nos antigos costumes samurais. Parece o paraíso, né? Mas, claro, o caminho até lá está longe de ser fácil.

Pra começar, Led teria que encarar seu vício no Tec e largar essa dependência que o transforma num tanque de guerra ambulante. E, como se isso já não fosse complicado o suficiente, eles ainda precisam escapar das garras do chefão Flak, que controla Los Angeles com mão de ferro e não está nada afim de largar seu império. Pelo contrário, ele quer mais – e Tóquio é o próximo alvo da sua expansão. Debbie pode até ter esperança, mas sabe que essa mudança vai ser uma batalha épica.

Os personagens de Tokyo Ghost são o tipo que grudam na sua cabeça de tamanho carisma. Debbie é uma protagonista incrível: forte, determinada e cheia de nuances. Já Led, coitado, é praticamente um quebra-cabeça humano, lutando contra seus próprios demônios enquanto tenta não se perder de vez.

Do lado dos vilões, temos o excêntrico Davey Trauma, tipo um hacker ou talvez um Agent Smith de Matrix totalmente lunático e cheio de gadgets que se infiltra em qualquer sistema como se fosse um passeio no parque. O que nesse mundo em que a história se passa, é praticamente um superpoder absoluto. Um ótimo vilão, eu diria.

E não dá pra falar de Tokyo Ghost sem mencionar a arte espetacular de Sean Murphy. Ele entrega um show visual, especialmente nas cenas de ação. É aquele tipo de sequência que faz seu queixo cair e você voltar algumas páginas só pra ver de novo.

Muitas cenas fazem um contraste bem forte entre o perfil pequenininho de Debbie e o monstro de músculos que é Dent, com sua doom-bike imponente. Mas o mais interessante é que Debbie não é minimizada. Ao contrário, ela assume um papel de destaque na ação, quebrando aquele estereótipo de mulher frágil ou apenas apoio para o herói. Ela é a grande protagonista da história, a única ali puramente heróica (ok, tem mais uma no meio da história, mas você precisa ler).

A forma como o relacionamento deles é mostrado também é bem fora do comum. A interpretação de Debbie de um papel tradicionalmente feminino, onde ela cuida de Led e se coloca em uma dinâmica de codependência, é vista não como algo idealizado ou romantizado, mas como uma patologia. É uma abordagem bem mais realista do que muitos autores homens geralmente fazem com personagens femininas, que costumam ser encaixadas em moldes perfeitos, quase como adereços. Aqui, não. Debbie é complexa, e suas escolhas não são romantizadas, mas exploradas de forma crua e verdadeira.

Se tem algo que pode incomodar alguns, ao mesmo tempo que pode ser um plus para outros, é a questão da sexualização, especialmente de Debbie. Há algumas cenas de sexo ao longo da HQ e em vários momentos vemos ângulos que focam um pouquinho demais em suas curvas, assim como de outras mulheres. Se fosse em mangás ou animes, seria o chamado ‘fan service’.

No entanto, Sean Murphy justifica muito bem todo esse ‘excesso’, pois isso condiz muito com o mundo onde ele está inserido. É totalmente factível e, para o meu gosto, não ficou gratuito. Até mesmo o Flak, que passa literalmente o tempo todo sem calças (muitas vezes até de camisa, mas sempre sem calça), faz sentido. O cara é um crápula, mutibilionário que faz absolutamente tudo que quer. Ele não precisaria seguir nenhuma convenção social, caso elas já não fossem quase inexistentes nesse futuro distópico. Seu ego é tão grande que ele acha que exibir o pinto por aí é praticamente uma honra para quem tem a chance de ver.

Se você gosta de distopias ou tem uma quedinha pelo cyberpunk, Tokyo Ghost é um prato cheio. E como já dito nos parágrafos anteriores, bem como é de se esperar de obras desse gênero, essa é uma graphic novel adulta. Tem de tudo – violência explícita, nudez, sexo, (muitos) palavrões, e umas cenas que vão te fazer arregalar os olhos (no melhor e pior sentido).

Em resumo, Tokyo Ghost é uma extrapolação direta da decadência do mundo moderno. Tudo ali é uma crítica afiada à nossa obsessão com conteúdo online, ao presidente palhaço grosseiro e à forma como a obscenidade se torna cada vez mais sem limites. Cada uma dessas expressões é o que realmente brilha na história, trazendo aquele toque caótico e surreal que só o cyberpunk sabe entregar.

Tem de tudo: um brinquedo no parque de diversões que é um polvo hentai (sim, você leu certo), a onda de assassinatos de personagens em um programa de streaming, e perseguições dignas de Mad Max, tudo misturado numa batida insana. Esses momentos são o brilho extravagante da trama – aquela loucura visual e narrativa que prende a atenção e deixa você sem saber se vai rir ou se perguntar “que diabo é isso?! o que tá acontecendo?!”

E aqui vai o plot twist: apesar de toda essa brutalidade, a mensagem central é surpreendentemente positiva. Tokyo Ghost fala sobre autoconhecimento, sobre se reconectar consigo mesmo e aprender a valorizar as coisas simples da vida. É um lembrete de que, mesmo em meio ao caos, ainda dá pra buscar um pouco de paz.

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