Review | Punk Rock Jesus

Imagine que criaram um clone de Jesus usando o sangue ressecado no Santo Sudário. Esse clone foi criado por uma gigante da mídia e toda a gestação do clone, infância e adolescência é acompanhada em um reality show. Um dia ele se revolta com tudo isso e vira uma proeminente voz do punk rock, criticando da forma mais ácida e ferrenha possível não só a indústria do entretenimento como também religiões e fanatismo. Essa é a maior premissa de Punk Rock Jesus.

O ano de 2019 ainda era considerado um tempo futuro. Essa gigante da mídia resolve lançar o reality show mais ousado (e polêmico) da história. O Projeto J2. A ideia é simples – e completamente maluca: acompanhar a vida do primeiro clone humano… que, detalhe, é ninguém menos que Jesus Cristo.

O programa funciona como um O Show de Truman com esteroides, onde o público tem acesso 24h à vida do menino enquanto ele cresce e descobre o mundo. Mas, claro, tudo isso através de um filtro cuidadosamente controlado. Porque, né, estamos falando de um produto midiático e não de uma criação divina de verdade.

Tudo começa com um grupo de cristãos fervorosos – e completamente insanos – que decidiram bancar o cientista maluco. Eles lançam uma campanha online com uma proposta de clonar Jesus Cristo para garantir que ele nasça exatamente em 25 de dezembro.

Na página de arrecadação, eles usam um argumento que é um misto de audácia e loucura: “Temos a tecnologia para trazê-lo de volta agora mesmo: não há razão, moral, legal ou bíblica, para não tirar vantagem disso.” A ideia pega e a grana começa a rolar solta. Afinal, quem não quer ver o salvador em um reboot em um reality show, né?

Como era de se esperar, o Projeto J2 vira um circo midiático que atrai todo tipo de atenção – e reações, claro. Desde ateus que acham tudo uma piada, até a extrema direita cristã que considera o programa um ultraje divino. Uns protestam, outros dizem ignorar, mas ninguém fica indiferente.

Para proteger o menino Jesus 2.0 (apelidado de Chris), sua mãe Gwen, e todos que trabalham no show, o chefão Slate tem uma espécie de guarda-costas/capanga/chefe de segurança: Thomas McKael, um ex-membro do IRA, um grupo paramilitar revolucionário irlandês. Thomas é responsável por manter os extremistas e loucos do lado de fora. A qualquer custo.

Entre os dramas pessoais dos personagens, os podres que rolam nos bastidores e a forma como o mundo vai pirando com o programa, Punk Rock Jesus se transforma em um show de caos e reflexão.

O escritor e desenhista Sean Murphy não brinca em serviço quando o assunto é construir mundos complexos e super detalhados. Com uma habilidade absurda, ele pega algumas das questões mais polêmicas dos nossos tempos: aquecimento global (a única cientista séria envolvida nessa loucura só topa participar porque isso financia sua pesquisa que tem potencial para salvar o mundo), depressão, ética, abuso de poder, o poder e influência política e social dos grandes conglomerados de mídia e quem as financia, fanatismo e extremismo em geral, e claro, religião.

O resultado? Uma HQ que não só provoca reflexão, mas também te deixa de cabelo em pé (Entendeu? Por causa do punk e tal…). Punk Rock Jesus é inquisitiva, cheia de reviravoltas e um tapa na cara da sociedade.

E tem muito mais na história, claro! Como a grande virada de Chris, que acaba saindo do programa e se tornando um punk rocker ateu (não é exatamente um spoiler, já que isso meio que faz parte da premissa). Mas vou deixar o resto para você descobrir por si mesmo, porque a jornada é o que vale!

O que importa é que Punk Rock Jesus é um quadrinho excepcional. E se essa foi a primeira vez que Sean Murphy escreveu (ele é muito famoso por ser um excelente desenhista, já até falei de uma obra que ele desenhou excepecionalmente aqui) e ele já chegou chegando! É claro que mesmo a história sendo ótima, a arte ainda sobra. O nível de detalhe que esse cara consegue entregar é impressionante.

Punk Rock Jesus é uma HQ sólida do começo ao fim, e, considerando que é a estreia de Sean Murphy como roteirista, isso é impressionante. A história te pega de jeito, os personagens são bem desenvolvidos e super humanos, os temas são instigantes e a arte é de um nível incrível. Perde um pouco o fôlego na segunda metade da história, mas nada que tire o brilho da obra. Se você curte quadrinhos que fazem você pensar de forma diferente ou ver velhas ideias com novos olhos, essa aqui é uma leitura indispensácel.

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