Review crítica | 100% (HQ): Paul Pope encontra histórias humanas em um futuro nada promissor

Uma coisa que sempre me chama a atenção nas histórias de ficção científica é como podemos imaginar mundos completamente diferentes do nosso e, ainda assim, continuar presos aos mesmos problemas. Podemos ter carros voadores, tecnologias capazes de transformar o corpo humano em um espetáculo e cidades que parecem saídas de um pesadelo futurista, mas ainda vamos precisar lidar com relacionamentos complicados, empregos insatisfatórios e aquela sensação de que a vida poderia estar caminhando melhor. Em 100%, Paul Pope parte dessa ideia para construir uma HQ que tem foco muito maior nas pessoas do que nas tecnologias que fazem parte de seu universo.

A história se passa em uma Nova York futurista e acompanha seis personagens cujas vidas se cruzam em torno de uma boate. São três mulheres que trabalham no estabelecimento e três homens que, de maneiras diferentes, acabam envolvidos em suas vidas.

John, que trabalha limpando pratos e servindo na boate, se interessa por Daisy, uma nova dançarina; Strel, chefe das dançarinas, precisa lidar com o retorno de Haitous, lutador de boxe que é seu marido e pai de seu filho; e Kim, amiga de Strel e que também trabalha no bar, tenta conciliar seu relacionamento com Eloy, o primo de Strel que é um artista que busca espaço para desenvolver o próprio trabalho.

São histórias diferentes, com conflitos próprios, mas que compartilham uma preocupação: como encontrar alguma satisfação pessoal em uma realidade que nem sempre oferece muitas oportunidades? Os problemas que estes personagens enfrentam são cotidianos, e isso acaba sendo uma das características mais interessantes da HQ.

O futuro mudou, mas as pessoas continuam as mesmas

A Nova York de Paul Pope tem carros policiais voadores, tecnologias curiosas e formas de entretenimento que levam a exploração do corpo humano a um nível bastante perturbador. Em uma das atrações da boate, por exemplo, os clientes podem assistir a apresentações nas quais os órgãos das dançarinas são projetados para o público. É uma ideia grotesca, mas que combina com a visão de futuro apresentada pelo quadrinista.

Em nenhum momento nos é explicado exatamente como aquela sociedade chegou a esse ponto, pois isso não importa. A tecnologia aparece integrada à rotina dos personagens, sem que a narrativa precise parar para apresentar regras, conceitos ou longas explicações sobre o funcionamento daquele mundo. O leitor vai descobrindo essas particularidades enquanto acompanha as vidas de quem habita a cidade.

Essa é uma ótima escolha, já que a HQ não foca em ser uma grande aventura de ficção científica. O cenário futurista é importante, claro, mas serve principalmente para contextualizar as histórias humanas que Pope quer contar. O que acontece entre os personagens importa mais do que qualquer novidade tecnológica que apareça pelo caminho.

Além disso, esse futuro está longe de representar uma sociedade melhor. A tecnologia avançou, o entretenimento se tornou mais extremo e a cidade ganhou características que não encontramos na nossa, mas as pessoas continuam enfrentando dificuldades financeiras, violência, insegurança e relações que nem sempre fazem bem. Não existe uma promessa de que o progresso tenha tornado a vida mais fácil para todo mundo.

A questão levantada pela HQ é bem simples: de que adianta viver em uma sociedade capaz de inventar tantas coisas se ela continua sem oferecer condições para que as pessoas tenham uma vida satisfatória? Tristemente bem próximo da nossa realidade atual.

Três relacionamentos, muitas complicações

A estrutura de 100% acompanha três casais, e cada relacionamento apresenta uma maneira diferente de lidar com os desejos e as expectativas que colocamos sobre outras pessoas.

John, por exemplo, é um sujeito que encontra em Daisy uma possibilidade de mudança. Seu interesse pela dançarina tem algo de romântico, mas também revela como podemos depositar expectativas demais em alguém quando estamos insatisfeitos com a própria vida. Às vezes, a possibilidade de um relacionamento parece representar uma saída para tudo aquilo que nos incomoda, mesmo quando os problemas vão muito além da nossa situação amorosa.

A história de Strel e Haitous trabalha com outra questão. O retorno do marido coloca a personagem diante de um passado que não desaparece apenas porque a vida seguiu em frente. Existe uma história entre os dois, mas também há ressentimentos, responsabilidades e outras pessoas afetadas pelas decisões que eles tomam.

Já Kim e Eloy trazem uma discussão sobre relacionamentos e ambição profissional. Eloy quer encontrar espaço para seu trabalho artístico, enquanto Kim precisa lidar com o que essa busca representa para a vida dos dois. É um conflito que envolve uma questão que vai além do apoio que esperamos receber de quem amamos: até que ponto é possível incentivar os sonhos de outra pessoa sem ignorar o impacto que suas escolhas têm sobre nós?

Essas três histórias ajudam a dar variedade à HQ. O amor não aparece como uma experiência única, que funciona da mesma maneira para todo mundo. Ele pode ser uma tentativa de escapar da rotina, uma relação com um passado complicado ou um desafio para quem precisa conciliar os próprios desejos com os de outra pessoa.

Uma HQ que ganha vida no desenho

Independentemente de opiniões divergentes que possam existir em relação ao roteiro, a arte de Paul Pope é um dos grandes motivos para continuar interessado na leitura.

Seu traço tem uma energia muito própria. As linhas são expressivas, os movimentos parecem espontâneos e os personagens ocupam os quadros de uma maneira que ajuda a transmitir suas emoções. Muitas vezes, a composição de uma página e a maneira como alguém se movimenta já são suficientes para estabelecer o clima.

O trabalho com o preto, o branco e os tons de cinza também merece destaque. A cidade não parece um cenário montado apenas para que os personagens circulem por ela. Os ambientes têm textura, os espaços ajudam a construir a atmosfera e a iluminação contribui para a sensação de que estamos acompanhando pessoas que realmente vivem naquele lugar.

É uma arte que consegue ser dinâmica sem transformar tudo em movimento constante. Há momentos em que o desenho parece pedir que o leitor desacelere, observe os personagens e preste atenção ao que acontece entre uma fala e outra. Nem sempre precisamos de uma explicação verbal para entender o desconforto de alguém ou perceber que uma conversa está tomando um rumo diferente do esperado.

Essa expressividade é fundamental em uma HQ que se interessa tanto pelo cotidiano. Quando a história não depende de grandes acontecimentos, o desenho precisa encontrar maneiras de tornar interessantes os pequenos momentos. Pope consegue fazer isso com frequência, dando personalidade a situações que poderiam passar despercebidas em uma narrativa menos cuidadosa.

O corpo como produto e o limite entre crítica e exploração

Um dos aspectos mais provocadores de 100% está na maneira como a HQ representa a sexualidade e a exploração do corpo feminino.

A boate que conecta os personagens transforma as dançarinas em atrações para um público interessado em experiências cada vez mais extremas. A tecnologia que permite projetar os órgãos das mulheres para os espectadores leva essa lógica ao absurdo, mas a ideia por trás dela é bastante familiar: quando o corpo se torna mercadoria, sempre existe alguém tentando descobrir como extrair ainda mais valor dele.

O cenário futurista funciona como uma extensão exagerada de uma sociedade em que o entretenimento precisa oferecer estímulos constantes para manter a atenção do público. A intimidade vira espetáculo, a exposição se transforma em produto e as mulheres precisam lidar com as consequências de trabalhar em um ambiente no qual seus corpos fazem parte do que está sendo vendido.

É uma ideia que rende uma discussão interessante, mas que também levanta algumas questões sobre as escolhas do próprio Pope. A HQ apresenta mulheres sendo observadas e sexualizadas, e o desenho frequentemente enfatiza seus corpos. Em certos momentos, essa abordagem parece reforçar a objetificação que a história pretende colocar em evidência. Aquela coisa: mirou na crítica, acertou no que criticava. Já vimos piores, mas não significa que está bom. Porém, pensando na época em que foi feito, até dá para entender que havia uma tentativa de acertar no tom.

Não acho que a presença de nudez ou de situações sexualmente explícitas seja, por si só, um problema. A questão é como esses elementos são utilizados e o que a narrativa faz com eles. Uma obra pode explorar imagens desconfortáveis para discutir relações de poder, mas isso não significa que todas as suas escolhas estejam automaticamente justificadas pela intenção crítica.

Em 100%, essa tensão merece atenção porque as mulheres não são apenas parte do cenário. Elas têm seus próprios desejos, problemas e expectativas. A HQ consegue levantar questões sobre exploração, intimidade e consumo, mas nem sempre parece encontrar a distância necessária para que a crítica e a representação não se confundam. É um aspecto que pode incomodar alguns leitores, e que considero importante mencionar ao falar de uma obra tão interessada na relação entre o corpo e a sociedade.

O que permanece depois da leitura

Paul Pope constrói um universo visualmente marcante e usa a ficção científica para explorar conflitos bastante humanos. Embora algumas histórias merecessem mais desenvolvimento e certas escolhas na representação da sexualidade levantem questionamentos, a HQ encontra força na expressividade dos desenhos e na maneira como observa as relações entre seus personagens. São qualidades que ajudam a sustentar a leitura mesmo quando o roteiro não aproveita todo o potencial de suas ideias.

Por isso, 100% merece a atenção de quem valoriza a linguagem visual dos quadrinhos e gosta de narrativas mais intimistas. A obra não é perfeita, mas tem personalidade suficiente para transformar as dificuldades cotidianas de seus personagens em uma reflexão interessante sobre amor, solidão e a busca por um lugar no mundo.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.