Em sua 1ª temporada, Loki superou minhas expectativas (que eram altas). Nesta 2ª, eu não estava lá tão empolgado, mas esperançoso. E mais uma vez, felizmente, fui surpreendido positivamente. Este não foi apenas o melhor roteiro da Marvel pós Ultimato: pra mim, é o melhor roteiro da Marvel. Ponto.
Note que eu citei como ‘Loki’, não apenas essa segunda temporada. Pois entendo que ambas as temporadas realmente se complementam, formando uma série maior, de 12 episódios e que contam uma história redondinha. Tanto que o título do episódio 1º é o mesmo do 12º. Fica claro que é um ciclo e que ele termina exatamente onde e como deveria: com o protagonista encontrando, finalmente, seu Glorioso Propósito.

Essa temporada foi exatamente sobre isso, propósito. Analisando de forma mais profunda, pode-se entender como tão metafórico isso é para o MCU em geral, como essa série representa a busca por propósito do universo onde ela está inserida.
Não é de hoje que os veículos e influenciadores especializados tentam nos (e se) convencer que os filmes de super-heróis estão esgotados. Alguns são mais sóbrios e falam sobre a fórmula estar desgastada. Eu sou dessa corrente. Entendo que filmes comuns de super-heróis não empolgam mais, eles precisam ter algo a mais, serem diferentes uns dos outros e não genéricos.
Na fase atual da Marvel, eu diria até mesmo antes de Ultimato, já havia claros sinais disso. Vários filmes foram esquecíveis, ou pelo menos muito menos memoráveis que outros. Isso não quer dizer que eram necessariamente ruins, apenas eram mais do mesmo. No entanto, alguns ainda continuam trazendo boas experiências, outros procuram (e por vezes acham) novas fórmulas. E ainda há aqueles que simplesmente são honestos, simples, mas cumprem bem o que propõem.

Não vou citar um por um como exemplos do que acabei de pontuar. O que é importante aqui, é deixar claro que Loki praticamente sumariza um pouco de cada um desses elementos. A série é simples e não reinventa nada se você pensa em termos de roteiro. Ao mesmo tempo, é complexa em seu entendimento se você estiver interessado em compreender como funcionam linhas temporais. Ela também experimenta diferentes sub-gêneros dentro do gênero maior ‘super-heróis’.
Basicamente é fantasia, mas tem sci-fi, drama, toques de comédia, aventura, momentos de ação. E não peca em nenhum aspecto técnico, mesmo não sendo um primor, digno de premiações cult.
Portanto, honesta. Não pretende ser algo muito além de divertida e que entretenha, mas é. Na verdade, ela entrega bem mais do que promete. Porque se ela promete entreter, e ela o faz, ao terminar (assim como várias vezes antes disso), ela te convida a refletir. De forma filosófica mesmo, além de por vezes te fazer pensar ‘será que eu entendi?’.
Falando um pouco sobre o plot, nessa temporada acompanhamos Loki se unindo a Mobius (Owen Wilson), à Caçadora B-15 (Wunmi Mosaku) e a outros membros da Autoridade de Variância Temporal (AVT) para explorar o multiverso em busca da Sylvie (Sophia Di Martino), Ravonna Renslayer (Gugu Mbatha-Raw) e da Senhorita Minutos.
Ele está tentando resolver a confusão que resultou da morte de Aquele Que Permanece (Jonathan Majors), uma das variações perigosas de Kang, pelas mãos da Sylvie. Em resumo, sem dar muitos spoilers, Loki passa a ‘deslizar’ pelo tempo e começa a ver essas diferentes linhas temporais sendo desfeitas, ou ‘podadas’ como é usado na série.

Nesses deslizes, ele conhece um personagem que é fundamental na criação e manutenção da AVT: Ouroboros (o incrivelmente carismático Ke Huy Quan). OB, como é apelidado, é uma ótima adição à série e contribui bastante para o desenrolar (ou seria ‘enrolar’?) da história.
Ainda sobre personagens, seus carismáticos intérpretes e suas contribuições, é lamentável que Jonathan Majors tenha se envolvido em todo imbróglio no qual se encontra. Ele está sendo acusado de violência doméstica, será julgado em breve (em relação ao momento em que escrevo). Culpado ou não, certamente a Disney não vai querer mais a imagem dele envolvida em suas produções.
O que é inegável, é o talento do ator. Ele entrega tudo como todas as variações que já viveu de Kang, seja na primeira temporada de Loki, nesta segunda (onde também aparece como Victor Timely) ou até mesmo em Homem-Formiga: Quantumania.
Resta saber se o ator será simplesmente substituído e os planos para o personagem seguem os mesmos, se a Marvel vai optar por mudar esses planos e tirar o foco de Kang como novo grande vilão de seu Universo ou alguma outra solução mirabolante. O que eu gostaria mesmo é que existisse um universo alternativo onde Jonathan fosse apenas um ser humano tão bom quanto é ator, pois seria ótimo ver esse talento seguindo em evolução.

De volta à série, depois da metade da segunda temporada, sua trama vai ficando cada vez mais difícil de ser compreendida no que diz respeito à questão de viagem no tempo e linhas temporais alternativas. Mas quem, assim como eu, gosta de histórias com paradoxos e loops temporais (recomendo esse texto aqui e esse outro aqui), vai curtir bastante.
Como se não fosse o bastante, Loki ainda consegue emocionar ao te fazer refletir sobre o por que estamos aqui e o que buscamos, livre-arbítrio e sacrifício. Se você acompanha o personagem desde seu início junto com o MCU, vai sentir ainda mais fundo essa conclusão da jornada do personagem, muito bonita e justa.
Interessante que, pra mim e minha filha, o final em si e o encerramento do protagonista, foi muito claro. Apesar de não ser mastigado, foi bem fácil de interpretar. Mas entre amigos e pelas reações na internet, nem todo mundo pensa assim. Muitos não entenderam esse final. Eu acho até isso bom, a dicussão gerada, a possibilidade de interpretações. Isso pode ser bom para o MCU, reacender a chama.

Para não dizer que tudo são flores, algumas coisas poderiam ter sido melhores: as personagens femininas ficaram um tanto escanteadas nessa temporada. Se a química de Sylvie e Loki foi um dos grandes destaques da primeira temporada, aqui ela se resume a uns dois ou três bons momentos. Há bons momentos solo de Sylvie, mas é pouco pra tanto potencial. Uma pena, a atriz merecia mais pelo que entregou antes.

Ravonna ficou esquecidaça no churrasco, poderia ter sido uma baita assistente de vilão que se rebelaria e ganharia sua própria história vilanesca (na pior das hipóteses), mas some a maior parte do tempo. Seu final é o mais aberto pra mim, me parecendo um gancho, mas que também pode não siginificar nada além de ‘ela teve o que merece’.
De toda forma, para com seu protagonista, sua jornada e seu intéprete, o roteiro foi perfeito. Tom Hiddleston teve toda a chance de mostrar seu talento e versatilidade, comovendo ao mostrar o drama de Loki em busca de seu tão falado ‘glorioso propósito’, sua redenção que chega incrivelmente sem deixar sua megalomania de lado, sendo ainda mais emocionante do que sua morte na linha temporal ‘principal’ do MCU.
Da mesma forma que em Thor: Ragnarok o protagonista tem os olhos abertos por Odin quando é questionado ‘você é Thor – Deus do Martelo, ou Thor – Deus do Trovão?’, aqui seu irmão adotivo percebe por si só que é um deus de verdade, e não apenas o deus da mentira (e/ou da trapaça). Ele entende todo poder que tem e como pode usá-lo para atingir o que tanto procurava sem saber.
O final é apoteótico e poeticamente lindo. Emociona como a Marvel já fez antes. Causa o impacto que o espectador tanto busca, ou pelo menos diz buscar. Surpreende como o MCU precisava voltar a fazer. Não deixa de ligar com o todo, aquilo que fez desse universo tão interessante.
Eu gostei muito, recomendo a todos e quero mais.