Recomendação | Eternidade

Sabe aqueles filmes que parecem feitos sob medida pra você assistir num domingo meio preguiçoso, com a cabeça viajando entre “e se?” e “putz, e agora?”. Eternidade é exatamente isso: uma comédia romântica com alma de ficção especulativa e crise existencial embalada em papel de presente bonito.

Amor, morte e uma escolha impossível

A premissa parece um ‘Black Mirror romântico’: depois de morrer, você tem um prazo pra decidir com quem vai passar a eternidade. Simples, direto, sem botão de “voltar depois”. Lembra um pouquinho, só um pouquinho, a série Upload.

É nesse limbo meio burocrático que a Joan (Elizabeth Olsen) aterrissa e descobre que precisa escolher entre dois amores: o marido com quem construiu uma vida inteira e o primeiro amor, interrompido cedo demais. E pronto. O filme te pega pelo colarinho emocional e não solta mais.

Um triângulo amoroso no pós-vida

O grande trunfo aqui não é só a ideia, que é boa por si só, mas como ela é explorada. O roteiro brinca com essa espécie de “central de atendimento do além”, onde o infinito vira quase um serviço de assinatura com opções e regras meio estranhas.

Tem humor? Tem. Mas não espere piada escrachada o tempo todo.

O filme prefere aquele humor que vem no meio do desconforto, tipo rir enquanto pensa “cara… isso aqui é meio perturbador”. E funciona porque nunca abandona o lado humano da coisa.

E aqui vale destacar o trio principal:

  • Elizabeth Olsen segura o filme com uma entrega emocional que faz cada dúvida parecer sua também
  • Miles Teller (que interpreta Larry), o marido por quase toda sua vida, traz aquele charme de “amor construído aos poucos”
  • Callum Turner (que interpreta Luke) representa o amor idealizado, quase congelado no tempo

É basicamente um duelo entre memória e realidade. Entre o amor que foi (ou que poderia ter sido) e o amor que virou casa, conforto e realidade.

Quando a ideia é maior que o filme (mas ainda assim vale)

Existe uma sensação clara de que o conceito daria uma série inteira ou um filme ainda mais ousado. Em alguns momentos, o roteiro parece flertar com questões profundas e depois dá uma desviada mais segura.

Talvez você até possa apontar que o filme não vai tão fundo quanto poderia na própria proposta. E é verdade. Mas aqui vai o pulo do gato: talvez essa leveza seja justamente o que faz ele funcionar.

Porque no fim, Eternidade não quer ser um tratado filosófico. Ele quer ser uma história sobre escolhas afetivas — aquelas que não têm resposta certa, só consequências. E, sobretudo, um filme mais gostosinho, que não quer pesar tanto o clima e te fazer sentir mais coisas boas do que causar reflexão demais.

Um final confortável demais para uma ideia gigantesca

Talvez a maior divisão causada por Eternidade esteja justamente nos minutos finais. Porque o filme passa quase duas horas prometendo um dilema emocional gigantesco, cheio de nuances sobre memória, idealização e as diferentes versões do amor… pra então desembocar num encerramento bem mais tradicional do que parecia indicar.

Durante boa parte da história, o longa sugere que está preparando algo mais ousado. A própria ideia de uma “eternidade customizada” abre possibilidades fascinantes. Dá margem pra questionar monogamia, nostalgia, amadurecimento, arrependimento e até a impossibilidade de condensar uma vida inteira em uma única escolha afetiva. Só que, quando chega a hora de fechar essa discussão, o roteiro recua um pouco.

Muita gente percebeu isso. Uma crítica do Daily Bruin chegou a dizer que o filme parecia ter encontrado um final perfeito antes mesmo do verdadeiro encerramento acontecer. O texto aponta que a decisão inicial de Joan carregava uma mensagem poderosa sobre independência e sobre como a finitude dá sentido à vida, mas que o longa “desfaz” parte dessa força ao insistir em um desfecho mais convencional depois disso.

Existe uma sensação de que Eternidade tem medo de deixar o espectador desconfortável. Em vez de abraçar a ambiguidade até o fim, ele escolhe uma resolução emocionalmente mais segura, mais próxima do DNA clássico das comédias românticas. Quase um “ok, precisamos garantir que o público saia satisfeito”.

Só que o filme era interessante justamente quando não parecia preocupado em agradar todo mundo.

Certamente, quando você assistir, pode ficar esperando um final mais estranho, mais melancólico ou, como foi no meu caso, mais moderno, incluindo possibilidades menos convencionais para o triângulo amoroso ou para uma Joan que descobre que não precisa mais de nada daquilo pois já viveu ambas realidades e agora precisa de outra coisa na eternidade.

E acho que é aí que mora a frustração. Pra mim, ficou aquela sensação de “gostei muito do filme, mas esperava um golpe final mais corajoso”. Um encerramento menos previsível. Porque um filme sobre o amor após a morte que tem uma construção de mundo tão bem executada, podia ter ido para lugares muito mais inesperados. E parte de mim ainda queria ver essa versão alternativa existindo em algum canto perdido daquela estação do além.

Vale a pena assistir?

Sem rodeio: vale sim. E bastante. Principalmente se você curte:

  • romances com um toque de ficção (tipo Questão de Tempo, só que mais agridoce)
  • histórias que brincam com o “e se?” da vida
  • filmes que deixam um gostinho de reflexão depois dos créditos

Não é o filme mais profundo do mundo. Nem o mais inovador. Mas é aquele tipo de história que te pega desprevenido, te faz pensar nos seus próprios caminhos e talvez até mandar uma mensagem meio aleatória pra alguém importante depois.

E se um filme te faz reconsiderar suas escolhas amorosas ou de vida em geral às 2h da manhã, ele já fez mais do que muita produção por aí.

Eternidade é tipo um encontro entre romance indie e ficção existencial, com um toque de melancolia e humor tímido. Não reinventa a roda, mas faz você pensar se escolheu bem com quem quer rodar nela.

E aí fica a pergunta que o filme planta e deixa germinando: se você tivesse que escolher hoje… escolheria a mesma pessoa pra sempre?

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