Recomendação | The Paper

Quando anunciaram The Paper, confesso: fiquei com um pé atrás e o outro pronto pra correr. Spin-off de The Office é sempre uma ideia que tem tudo para dar muito errado. E não é que a série é bem interessante?

A série aposta no mesmo formato mockumentary que a gente já conhece, mas troca o escritório por uma redação de jornal em crise — o que, convenhamos, já rende um pano de fundo bem mais caótico (e atual). Tem uma crítica leve ao jornalismo moderno, à corrida por cliques e à sobrevivência no digital. Nada muito profundo, mas funciona bem como cenário pra comédia.

O humor? Funciona… na maior parte do tempo. O que já é uma vitória.

Não tem aquele constrangimento nível Michael Scott que faz você rir e sofrer ao mesmo tempo. Aqui, o tom é mais leve, mais “de boa” de forma geral. Em alguns momentos, isso é até um alívio. Em outros, dá uma sensação de que falta aquele tempero que transformava The Office em algo realmente inesquecível.

Outro ponto que pesa: o começo é meio morno.

Assim como sua série-mãe lá atrás (e sua sucessora espiritual que foi pensada para ser também um spin-off, Parks & Recreation), The Paper demora um pouco pra engrenar. Os personagens ainda estão se encontrando, as dinâmicas não são tão afiadas e você provavelmente não vai se apegar de cara. Mas… dá pra ver potencial ali. E isso conta bastante.

A boa notícia é que a série não vive só de nostalgia. As referências a The Office existem, mas são pontuais — o foco aqui é claramente tentar construir algo novo. E isso é um acerto enorme.

A principal prova disso é a participação de Oscar (Oscar Nunez), que funciona como um fan service bem dosado. Sim, é o mesmo Oscar de The Office, não só o mesmo ator, é o mesmo personagem. E ele mantém o sarcasmo afiado e o olhar julgador clássico, só que agora com um ar mais experiente e menos paciente com absurdos.

Na série, o personagem atua mais como um observador do caos do que como protagonista, servindo de ponte entre os dois universos. Sua presença ajuda a conectar as histórias sem roubar o foco, trazendo nostalgia na medida certa — e mostrando uma evolução sutil, mas interessante. Para o espectador, é como se a presença dele dissesse: “ok, isso aqui faz parte do mesmo universo… mas é outra história”.

Sobre os novos personagens, há dois que valem maior destaque. Ned (Domhnall Gleeson) é um protagonista construído na base do caos silencioso — ele não é o mais engraçado da sala, nem o mais excêntrico, mas é claramente o eixo em volta do qual tudo gira. Fazendo uma comparação meia boca, é como se o Jim fosse realmente o protagonista de The Office que ele prometia ser mas nunca foi de fato.

Na história, ele ocupa esse lugar meio ingrato de “líder que ninguém pediu, mas todo mundo depende”. Como editor (ou quase isso), Ned vive apagando incêndio o tempo todo — seja crise interna, queda de audiência ou simplesmente a equipe surtando por qualquer motivo mínimo. E o mais curioso é que ele raramente resolve as coisas de forma brilhante… ele só vai sobrevivendo.

Diferente de figuras mais caricatas tipo o Michael Scott em The Office ou Leslie Knope and Parks, o Ned é bem mais contido. O humor dele vem muito mais da frustração acumulada, das decisões meio tortas e daquele olhar clássico de quem já desistiu por dentro, mas continua ali porque não tem outra opção, mas também porque acredita que pode fazer algo bom para si e para todos. É quase um protagonista “cansado antes do tempo”.

O arco dele gira muito em torno dessa crise constante: ele ainda acredita no jornalismo? Ou só tá tentando manter a máquina funcionando? Em vários momentos, parece que ele tá preso entre o que queria que o trabalho fosse e o que ele realmente virou — e essa tensão dá um peso interessante pra narrativa.

Ned é o retrato de alguém tentando liderar num cenário onde ninguém realmente sabe o que tá fazendo. Isso é bastante realista — e identificável. Se a série continuar investindo nele, dá pra sair um protagonista bem marcante justamente por fugir do arquétipo de suas séries mãe e irmã.

Mare (Chelsea Frei), foge fácil do clichê da “novata perdida” e “Interesse romântico do protagonista”. Ela chega sendo uma das mentes mais rápidas da redação — questiona tudo, cutuca as regras antigas e não aceita o “sempre foi assim” tão fácil.

Ela equilibra bem o jogo: ao mesmo tempo em que ainda acredita no jornalismo de verdade, também manda aquele sarcasmo necessário pra sobreviver num ambiente meio caótico (e, às vezes, bem tóxico). E é muito pelo olhar dela que a gente percebe o quanto tudo ali pode ser meio absurdo. Ela é o que seria a mistura entre Jim e Pam, atualizada para os anos 2020.

Outro destaque vai para a personagem Esmeralda (Sabrina Impacciatore). Se Ned representa a tentativa de revigorar a publicação com idealismo, Esmeralda é o choque de realidade corporativo. Ela é a personagem que entende a mecânica do jornalismo de sobrevivência: para ela, a integridade da notícia é secundária à viabilidade financeira e ao engajamento digital.

Ela é a personagem desconfortável da série que nos faz lembrar de outros equivalentes como o próprio Michael Scott, ou ainda uma mistura caótica entre Meredith (The Office) e até Andy ou Tom (Parks). Ela começa a se desenhar como um tipo de vilã, ou no mínimo uma antagonista. Acredito que há muito para desenvolver nela, especialmente pelo talento já comprovado da atriz que apareceu muito bem em The White Lotus.

Diferente de The Office e mais próximo de Parks no que diz respeito a trazer reflexão sobre o mundo real e a sociedade em que vivemos, The Paper funciona quase como uma sátira da decadência do jornalismo local, mostrando uma redação enfraquecida e meio perdida em meio a cortes, perda de propósito e pressão comercial.

Mas não fica só na zoeira: ao mesmo tempo em que tira sarro, a série também demonstra um certo carinho pela mídia tradicional — como se dissesse “ok, tá tudo bagunçado… mas ainda importa”. E nisso ela encosta direto numa ferida bem atual: o fato de que qualquer pessoa hoje pode virar fonte de informação.

Em um dos episódios, por exemplo, o jornal perde relevância pra um blog de estudante com centenas de milhares de seguidores — e isso vira um mini colapso interno. Por isso, The Paper tem ainda uma vantagem que a torna ainda mais destacada de sua fonte de inspiração e que dá a ela alma: ela consegue fazer você pensar e não só rir.

E nem vou entrar outros assuntos abordados na série e que são desenvolvidos de forma inteligente, sem se aprofundar demais para parecer pauta social mas também ser ser raso demais para parecer gratuito. Vou deixar para quem assistir voltar aqui e me dizer o que achou.

No fim das contas, The Paper é uma série que ainda tá em fase de “me dá mais alguns episódios que eu te convenço”, apesar de já ter entregado uma temporada completa. Não chega revolucionando, mas também passa longe de ser um fracasso.

Vale a pena? Vale sim — principalmente se você curte esse estilo de humor mais cotidiano e personagens meio caóticos. Só não vai esperando um novo The Office… porque aí a cobrança fica injusta.

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